ULTIMOS ESTUDOS
AS IGREJAS DO NOVO TESTAMENTO
APRESENTAÇÃO DO AUTOR
Este livro foi concebido durante o meu primeiro pastorado na Primeira Igreja Batista em Temple, Texas. Cogitei dele pelo espaço de dois anos, enquanto pastoreava a Igreja de Gaston Avenue, em Dallas, Texas. Porém, só depois de quinze anos decorridos pus em prática o plano de publicá-lo; isso porque os meus deveres pastorais e denominacionais me impediam de preparar convenientemente o original.
?A Igreja? do Novo Testamento?, seja qual for a significação desses termos, são temas que têm sido tratados por diversos autores. Esses livros, em grande parte, têm deixado o assunto onde Tácito deixou o seu herói ? no meio da ponte. As sete igrejas da Ásia, no Livro de apocalipse, são o tema de diversos livros interessantes, já publicados. As discussões acerca das igrejas mais importantes do Novo Testamento, aquelas que figuram na inauguração e propagação do cristianismo, as que ocupam a maior parte dos atos dos Apóstolos e que deram origem às grandes epístolas de Paulo, nunca tinham sido apresentadas em um só volume.
O propósito deste livro é mostrar a origem, o caráter, os princípios e as práticas das igrejas do Novo Testamento; mostrar a unidade que existia entre elas, no meio de grande diversidade de coisas e de ambiente; mostrar para os pastores, leigos, e igrejas da atualidade.
Tive grande dificuldade em decidir a ordem em que deveriam ser colocados os oito últimos capítulos. Os primeiros vieram, cronologicamente e geograficamente, na ordem em que se acham no livro. Depois de estudar os arranjos doutrinais, históricos e geográficos, optei pelo plano geográfico, isto é, começando com a igreja em Jerusalém e tomando as demais ordem até chegar à de Roma.
Havia diversos arranjos geográficos, que poderia seguir com respeito às igrejas na Galácia, Éfeso e Colossos, porém o que foi adotado parece-me que é o mais simples.
Não segui o pensamento de nenhum autor em particular, mas procurei externar as minhas idéias, baseado no meu estudo do Novo Testamento e no exame que fiz de obras de outros autores sobre o assunto. Examinei diversas traduções da Bíblia e usei aquelas que mais fielmente, a meu ver, exprimem as verdades.
Geo. W. MacDaniel
ÍNDICE:
A IGREJA MÃE EM JERUSALÉM
A IGREJA MISSIONÁRIA EM ANTIOQUIA
A IGREJA EFICIENTE EM ÉFESO
A IGREJA HERÉTICA EM COLOSSOS
A IGREJA ALEGRE EM FILIPOS
A IGREJA ESPERANÇOSA EM TESSALÔNICA
A IGREJA MUNDANIZADA EM CORINTO
A IGREJA CELEBRE EM ROMA
OUTRAS IGREJAS
BERÉIA, IGREJA IRREPREENSÍVEL
AS SETE IGREJAS DA ÁSIA
SIGNIFICAÇÃO DA PALAVRA ?IGREJA?
A palavra grega ekklesia, traduzida ?igreja?, acha-se três vezes em Mateus, vinte e três nos Atos dos Apóstolos, sessenta e duas nas cartas de Paulo, duas em Hebreus, uma em Tiago, três na Terceira Epístola de João e vinte no Apocalipse. Jesus não criou a palavra ekkesia; achou-a em uso, como João Batista achou o batismo de prosélitos, e dela se utilizou.
Entre os gregos, ekklesia era a assembléia dos cidadãos de um estado livre, reunidos e convocados a toque de trombeta pelas ruas da cidade. Nesse sentido a palavra é usada uma só vez (Atos 19:39) no Novo Testamento. O escrivão da cidade aconselhou a Demétrio e a seus companheiros ao julgamento da ekklesia grega.
Entre os hebreus, ekklesia era a congregação de Israel reunida perante o Tabernáculo, no deserto, ao som de uma trombeta de prata. Nesse sentido a palavra se encontra duas vezes no Novo Testamento (Atos 7:38; Hebreus 2:12). Estevão, contando a história de Israel, diz que Cristo esteve na ekklesia no deserto. O escritor da Epístola aos Hebreus cita um salmo profético, escrito por Davi, em que o significado é ?congregação? (Salmos 22:22).
Tanto no grego como no hebraico a palavra significava uma assembléia popular, e não uma comissão ou concílio. Entre os crentes primitivos, a palavra ekklesia tinha a acepção comum de uma assembléia popular convocada em lugar público, literalmente ?chamados fora? e ?convocados para Cristo?. Como havia três usos gerais do termo, a saber: o grego, o hebraico e o cristão, também havia, entre os cristãos, três idéias gerais, a saber: uma instituição, uma congregação particular e os redimidos de todos os tempos.
No decurso de vários séculos até o presente, tem havido grande controvérsia acerca da significação da palavra ?igreja? no Novo Testamento. As idéias de muitos crentes, acerca deste ponto, são vagas e contraditórias. Aquele talento de escol que foi Frederico W. Robertson estava tão imbuído e saturado do tradicionalismo episcopal, que disse: ?Quando os batistas, ou os independentes, ou qualquer outra seita, se unirem com os que ensinam ou praticam as mesmas opiniões e doutrinas, poderão formar uma seita, uma combinação, uma fé; mas não poderão ser uma igreja?. Não devemos dogmatizar onde existe uma divergência tão larga entre bons irmãos, conhecedores da Palavra de Deus. Entretanto, a significação tríplice da palavra ekklesia é, a meu ver, a que mais se recomenda, a única que me satisfaz.
A tabela, no apêndice deste livro, dá todas as passagens do Novo Testamento onde se encontra a palavra ekklesia, agrupadas sob as três acepções que tem, segundo o meu modo de entender. Consulte-a o leitor. Note-se que Atos 7:38 e Hebreus 2:12 se referem à congregação ou assembléia judaica; Atos 19:42, 41, a um ajuntamento ilegal, e Atos 19:39 se refere a uma assembléia legal, sim, mas não a uma assembléia cristã. Portanto, essas cinco referência são omitidas na citada tabela. Omitimos também Atos 2:47, porque a palavra ekkesia não se acha nos mais antigos e autorizados manuscritos do N.T. A palavra ekklesia, pois, acha-se cento e quatorze vezes no Novo Testamento, sendo que cento e nove têm a significação cristã. Quanto à classificação: em Atos 9:31 é mencionada como local, significando a igreja em Jerusalém, que foi dispersa pela perseguição de Saulo de Tarso. A classificação dupla em Efésios não é arbitrária, porque está em harmonia com a regra seguida por Paulo na Epístola aos Colossenses, onde ele empregava a palavra ?igreja? no sentido geral e particular. Nosso Senhor deu-nos o exemplo de tal costume de escrever, quando passou imperceptivelmente da discussão acerca da sua segunda vinda para o fim do mundo (Lucas 21:20-28).
1. TRÊS SENTIDOS NEOTESTAMENTÁRIOS DE ?IGREJA?
A classificação sumária do uso cristão da palavra é: a) Como instituição, quatorze vezes; b) como congregação local, noventa e três vezes; c) como reunião de todos os remidos, duas vezes
Consideremos minuciosamente as três significações cristãs do termo ?igreja?:
a) igreja como instituição:
?Sobre esta pedra edificarei a minha igreja? (Mateus 16:18). Jesus só edificou uma coisa, depois de sair da carpintaria em Nazaré, que foi a sua igreja. A palavra enfática é ?minha?, que distingue a Igreja de Cristo das assembléias dos gregos e dos hebreus. No Novo Testamento não se usam adjetivos para definir a ?igreja?. Os conhecidos adjetivos ?universal?, ?invisível?, ?espiritual?, ?católica? são de criação humana, e não divina. Essa instituição divina depende, num sentido importante, da confissão pessoal. Não meramente do homem Pedro, como querem os romanos, nem da simples confissão, como querem alguns protestantes; mas, sim, do homem que confessa a divindade essencial de Jesus. Essa confissão é a expressão do coração, e não do intelecto, como dizem as Escrituras: ?Pois é com o coração que se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação? (Romanos 10:10). Nós confessamos a Cristo; mas professamos uma religião. Não foi a simples percepção intelectual de Cristo, por parte de Cristo, que nosso Senhor louvou. O que Pedro fez e disse, ele o fez e disse à luz do Espírito Santo: ?Porque não foi a carne e sangue quem o revelou, mas seu Pai, que está nos céus? (Mateus 16:17). Quis Jesus dizer com isso que o poder divino operara em Pedro, levando-o a fazer essa confissão: ?Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor! Senão pelo Espírito Santo? (I Coríntios 12:3). A igreja, como uma instituição, foi sempre composta de material fraco, como Pedro, que pelo Espírito, reconheceu ser Jesus o Filho de Deus. A essa instituição e aos seus representantes foi confiada a autoridade de anunciar os termos ou condições pelas quais Deus perdoas o pecado. O mesmo poder dado a Pedro foi dado também aos outros dez apóstolos, segundo João 20:23; e a toda a Igreja, segundo Mateus 18:18.
A doutrina da Igreja Romana, de uma igreja universal, com poder de ligar e desligar, não se encontra nas Escrituras. Na verdade, a palavra católica não se acha no Novo Testamento; nem na versão dos Setenta (o Velho Testamento em grego). Foi nos tempos pós-apóstolos que se adicionou o termo católico aos títulos de certos livros; por exemplo: ?Primeira Epístola Universal (católica) de Pedro?. Pedro nunca teria dado esse título a uma das suas epístolas, porque nos dois primeiros versículos ele claramente limita a sua mensagem: 1) aos judeus; 2) aos judeus eleitos; 3) aos judeus eleitos dispersos; 4) aos judeus eleitos dispersos nas quatro províncias da Ásia Menor. Pode-se, pois, chamá-la de qualquer outra coisa, menos de uma epístola católica. Erro igual a esse adjetivo acrescentado aos nomes dos apóstolos e evangelistas, como, por exemplo: ?São Mateus?, ?São Marcos?, etc. Deus providencialmente preservou o texto sagrado isento desses erros romanistas. Os que bem entendem a nomenclatura do Novo Testamento nunca falam dos apóstolos como santos, em um sentido particular, à parte daquele que abrange todos os crentes fiéis em Cristo, que repetidas vezes são chamados ?santos?. ?Igreja Católica? não é nome bíblico; e nem aparece no mais antigo ?credo apostólico??.
Jesus tinha em mente uma instituição quando disse: ?Dize-o à igreja... se também recusar ouvir a igreja...? (Mateus 18:17). A presidência dos Estados Unidos foi uma instituição estabelecida pelo Artigo II, Seção I da Constituição, mesmo antes que houvesse um presidente. Houve vinte e oito presidente, porém só uma presidência como instituição. Talvez nos ofereça uma ilustração própria o júri. A VI emenda à Constituição Federal dos Estados Unidos requer um júri, no julgamento de todos os crimes. Ao acusado é garantido julgamento rápido e público por um júri imparcial. Quer isso dizer: Essa emenda à Constituição estabelece o júri como uma instituição. Assim, Jesus estabelece a sua Igreja como instituição. Na sua aplicação prática, o júri, com instituição, concretiza-se no júri local, que julga o acusado. Semelhantemente, a Igreja, instituição, toma corpo em parte congregação local.
A figura de um edifício se encontra no Novo Testamento em relação à Igreja como instituição, mas nunca se encontra o nome de igreja em relação ao edifício em que a igreja se congrega, como se usa comumente. Considerando a igreja como uma constituição, simbolizada por um edifício, cujas verdades fundamentais decorrentes são: 1) Cristo é o criador; 2) é o arquiteto; determina o material que entra no edifício; 3) é o mestre da obra; 4) é o alicerce: ?Porque ninguém pode lançar outro fundamento? (I Coríntios 3:11); 5) é o dono: ?minha igreja? significa a posse de uma propriedade; 6) é o morador do edifício: habita no edifício, na pessoa do Espírito Santo.
A figura de um organismo também foi usada em relação à Igreja como instituição. Considerada como instituição simbolizada por um organismo, depreende-se que 1) Cristo é a cabeça. A sua soberania é exercida pelo seu único vigário, o Espírito Santo. O exercício dessa soberania por um simples homem é usurpação, é blasfêmia. 2) A igreja é o corpo de Cristo. O corpo tem relação vital com a cabeça e recebe dela toda a direção. Corta-se a cabeça e o corpo morrerá. 3) Cristo é também o cabeça ?sobre todas as coisas na Igreja?. Exerce todo o poder no universo em benefício de sua Igreja. 4) A Igreja manifesta a plenitude de Cristo. Como Cristo revela concepção da natureza de Deus, assim também a Igreja revela a concepção do amor, autoridade, poder e glória de Cristo.
b) Igreja como Congregação Particular
Passemos, agora, à consideração da segunda significação do termo ?igreja?, a saber, uma Congregação Particular. Esse é o uso predominante no Novo Testamento. A expressão quer dizer pessoas regeneradas, num lugar, reunidas voluntariamente, em conformidade com as leis de Cristo, a fim de estabelecer o seu reino na terra. O membro de uma igreja não é por natureza, ou por qualquer outra circunstâncias independente da vontade do indivíduo, como o ser membro da família, ou do Estado, mas é da livre escolha da pessoa.
(1) Locais das reuniões - Provavelmente as igrejas primitivas congregavam-se em casas particulares. A Ceia do Senhor era celebrada numa dessas casas (Atos 2:46). A Igreja primitiva reunia-se na casa de Maria, mãe de João Marcos (Atos 12:12). Paulo mandou saudações pelo menos a três igrejas em casas particulares: a da casa de Áquila e Priscila (Romanos 16:3,5), a reunida em casa de Ninfas (Colossenses 4:15) e a da casa de Filemom, em Colossos (Filemom 2). Gaio, ?hospedeiro de toda a igreja? (Romanos 16:23). É provável que as passagens Romanos 16:14, 15 e I Coríntios 16:15 refiram-se a três outras igrejas em casas particulares. Era muito natural que as congregações se reunissem em casas particulares. Muitas igrejas, nos tempos atuais, tiveram o seu começo assim. A Primeira Igreja Batista de Richmond, por exemplo, foi constituída em 1870, com quatorze membros, ?na casa de um irmão, de nome Franklin?. Muitos outros exemplos poderiam ser citados.
(2) Os requisitos para ser membro das igrejas do Novo Testamento.
São bem definidos. Nem todos os residentes numa cidade poderiam tomar parte numa assembléia política grega. Seus membros precisavam ser livres. O simples nascimento de uma família judaica dava direito à congregação judaica. Os prosélitos, porém, precisavam ser circuncidados. Uma igreja cristã exigia a fé e o batismo para alguém ser membro dela. Uma ekklesia do Novo Testamento não era sinônimo da ekklesia judaica; e as condições de admissão eram inteiramente diferentes.
A questão de comunhão livre não foi levantada pela simples razão de que as muitas denominações que hoje existem então não existiam. O afastamento dos princípios inspirados é a fonte de muitas questões desagradáveis. Há um só caminho seguro a seguir, a saber: uma obediência rigorosa à ordem divina. Isso manifesta falta de amor fraternal. Os membros da ordem dos Cavaleiros de Pítias, por exemplo, não são membros de uma ordem de maçons, e vice-versa. Cada organização secreta tem a sua própria cerimônia de iniciação de membros. Isso não quer dizer que eles não estimem as outras organizações secretas. Membros de uma sociedade passam s outra, da mesma ordem, sem uma nova iniciação. Despertadas as diferenças, assim é com os batistas nos dias de hoje.
(3) A forma de governo dessas igrejas locais ? Era congregacional. Uma igreja ter autoridade sobre outra igreja, ou sobre um homem, ou grupo de homens, exercer jurisdição sobre outra igreja, ou sobre um território de diversas igrejas, são fatos estranhos ao Novo Testamento. Os crentes mais íntimos de Cristo entenderam que ele entregou a autoridade à coletividade da igreja. Havia vista a nomeação de Matias, pelos ?cento e vinte (Atos 1:15-22); a escolha dos sete diáconos pela multidão dos discípulos (Atos 6:2); a nomeação de Barnabé como representante da ?igreja em Jerusalém? (Atos 11:22); a escolha de Barnabé e Saulo, pela igreja em Antioquia (Atos 13:13); a eleição dos presbíteros pelo voto das respectivas igrejas (Atos 14:23); a escolha de Paulo e Barnabé para irem a Jerusalém por causa da controvérsia sobre a circuncisão na igreja em Antioquia (Atos 15:3); a expedição de homens escolhidos pelos apóstolos e anciãos, com a igreja toda (Atos15:22); o chamar à ordem os apóstolos, o julgamento do seu proceder, o reconhecimento da supremacia da assembléia local (Atos 10:1-4; 16:22-29; as provas abundantes de as igrejas dirigirem os seus negócios e disciplina (I Coríntios 5:4,5); e a escolha de um representante para viajar com Paulo (II Coríntios 8:19). Dessas passagens claramente se entende que uma assembléia particular governa-se a si própria. Não havia nenhuma hierarquia, mesmo onde e quando os apóstolos estavam presentes. Jesus salvaguardou as suas igrejas contra a forma episcopal de governo, isto é, da oligarquia, estabelecendo a forma de governo democrático, em que o governo era do povo, para o povo, e pelo povo.
(4) Definição de ?igreja? como congregação particular ? Uma compreensão clara das igrejas do Novo Testamento é tão importante que me atrevo a considerar o assunto sob um ponto de vista um tanto diferente daquele sob o qual já foi apresentado. Tomemos esta definição: uma igreja do Novo Testamento é um grupo organizado, de crentes batizados, com iguais deveres e privilégios, administrando os seus negócios sob a direção de Cristo, unidos na fé que ele ensinou, ligados pelo pacto de fazer o que ele mandou, cooperando com outras agremiações semelhantes nos empreendimentos para a extensão do seu reino.
c) Igreja como ?os Remidos de Todos os Tempos
A terceira significação da palavra ?igreja? é ?os remidos de todos os tempos?. ?Mas tendes chegado ao Monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, a miríades de anjos; `a universal assembléia e igreja dos primogênitos inscritos nos céus (Hebreus 12:22-23). Todos os que, desde Adão até Cristo, foram salvos pelos méritos da morte de Cristo e serão membros dessa igreja na glória. Essa igreja não terá nenhuma ordenança, nem oficiais, nem organização. As condições para se entrar nela são: regeneração, santificação e glorificação. Ela está no futuro e distingue-se da igreja atual, que é uma instituição concentrando e operando em congregações particulares. Essa igreja vai ser a esposa do Cordeiro. As bodas ocorrerão no fim dos tempos, quando a obra redentora de Cristo estiver consumada, quando todos os inimigos forem postos por escabelo dos seus pés, quando a morte for aniquilada, quando ocorrer a ressurreição dos santos em corpos glorificados, então a igreja gloriosa, qual linda noiva, não tendo mancha nem ruga, nem qualquer semelhante, mas santa e irrepreensível, será apresentada a Jesus, o Noivo (Efésios 5:27). A Igreja como instituição será então fundida com a igreja na glória. Isso tudo está no futuro. Quando, não sabemos. Quando contemplamos as rugas e manchas das igrejas do presente, a Igreja aperfeiçoada na glória parece ainda mais remota.
2. DEFINIÇÃO DE IGREJA ANALISADA
Leiamos, de novo, a definição de igreja e a analisemos.
a) Um grupo organizado
A igreja não é uma simples aglomeração de povo; aliás, é mais que uma congregação. João Batista pregou às multidões e muitos seguiram a sua doutrina; mas não constituíam uma igreja. Estavam sem organização. Jesus principiou a primeira igreja com dois dos discípulos de João; ajuntou outros e organizou-os todos em uma congregação. Revestiu essa organização de poderes no dia de Pentecostes. Quando em suas viagens missionárias, Paulo plantava o evangelho, porém não considerava o seu trabalho consumado enquanto não organizava a igreja e promovesse a eleição dos seus pastores, pelo meio democrático de ?levantar a mão?. (Veja-se Davis Smith, Life and Letters of Paul, página 105). Um edifício não é essencial à existência de uma igreja, porém uma organização sim. O edifício é útil; a organização é indispensável. Logo que um grupo de pessoas se reúne, a fim de se constituírem em igreja, adota certos princípios como vínculos que as ligam e dirigem. Elas escolhem, então, os seus oficiais e aperfeiçoam sua organização, para atingir os seus propósitos.
b) Um Grupo de Crentes Batizados
Batismo significa batismo mesmo. A palavra grega não foi traduzida na versão do rei Tiago, nem nas revisões; foi transliterada. (O mesmo sucedeu com as traduções em português). Se o tradutor tivesse traduzido o original, forçosamente teria usado o termo ?submergir?, como em algumas versões em inglês. A significação da palavra, a descrição do ato, o simbolismo da ordenança, a prática uniforme dos cristãos primitivos, tudo se une para atestar que submersão é a forma do batismo cristão. Esse batismo é para os crentes, que adquiriram uma fé salvadora em Jesus Cristo. João Batista exigia uma mudança de coração antes de batizar os que vinham a ele. Jesus ordenou aos apóstolos que fizessem discípulos antes de os batizar. Os que de ?bom grado receberam a palavra? (Atos 17:11) foram batizados por Pedro, e pelos seus colegas. Filipe exigiu que eunuco tivesse fé antes de ser batizado. Os que foram convertidos pela pregação de Paulo, inclusive as famílias, são descritos como crente. Sem exceção alguma, o batismo do Novo Testamento era sempre feito mediante profissão de fé por parte do batizando. Em todos os registros no Novo Testamento vê-se que a fé sempre precedia o batismo.
Essa doutrina exclui as criancinhas, porque elas não precisam ser batizadas. Elimina o batismo dos que não são convertidos porque não estão prontos para ser batizados. Inclui todos os que crêem no Senhor Jesus Cristo como seu Salvador pessoal e impõe a cada um o dever solene de obedecer.
c) Um Grupo de Pessoas com Deveres e Privilégios Iguais
Uma classe dominadora é estranha a uma igreja do Novo Testamento. Jesus condenou esse costume pagão e disse ao seu povo: ?Não será assim entre vós? (Mateus 20:26). Os oficiais são escolhidos para guiar. Não para dominar. Salvo o prestígio que lhe advém do bom desempenho do cargo e do seu valor pessoal, mais nenhum direito tem o oficial da Igreja do Novo Testamento que outro qualquer membro não tenha. A hierarquia eclesiástica não é somente estranha à Bíblia, é também antibíblica. O pastor pode guiar, aconselhar o seu irmão na fé, mas nada lhe pode impor, porque seus direitos são os mesmos.
Assim é com os privilégios individuais. São todos iguais. Só numa igreja escritural é isso um fato. Nenhuma outra denominação, e nenhum outro governo civil dá direitos iguais à mocidade e à velhice, ao rico e ao pobre, ao homem e à mulher. Numa igreja, todos são iguais. E mais, os membros têm o direito de votar. Portanto, uma igreja batista é uma democracia pura, a única no mundo hoje. Naturalmente esses privilégios, como todos os demais, quando mal usados, trazem suas conseqüências. As democracias têm seus próprios perigos, se bem que diferentes dos de outras formas de governo. As consciências esclarecidas são a salvaguarda das igrejas batistas.
d) Um Corpo Administrando os Seus Negócios Debaixo da Soberania de Cristo.
Uma igreja batista governa-se a si mesma. Sua forma de governo é gongregacional, distinta do papal, episcopal ou presbiteriana. Tem todo o poder administrativo e judicial necessário. De suas decisões não há apelo, visto que ela é o tribunal supremo. Elas é, a um tempo, juiz e júri. Não tem poderes legislativos. O Novo Testamento é a sua lei e Cristo o seu legislador. Cristo é o ?cabeça sobre todas as coisas na igreja? (Efésios 1:22) O direito pelo qual as pequenas nações e povos oprimidos se têm batido, isto é, de determinar por si próprios a sua forma de governo e os seus oficiais, tem sido um princípio fundamental numa igreja batista, desde o início da era cristã. Esse princípio foi ensinado primeiro no Novo Testamento e tem sido tomado como regra por todas as igrejas batistas desde aquele tempo.
e) Um corpo Unido na Mesma Fé
Os membros de uma igreja do Novo Testamento formam um corpo unido na mesma fé, isto é, na fé que Jesus ensinou. Isso quer dizer a ?fé comum?, que é também a ?fé que uma vez para sempre foi entregue aos santos? (Judas 3). Essa fé compreende doutrinas, como: a da natureza pecaminosa do homem e a responsabilidade de se salvar a si mesmo; o amor eterno de Deus para com as suas criaturas; a divindade de Cristo e o seu poder de salvar; Cristo era Deus-Homem e fez expiação pelo nosso pecado; a missão e trabalho do Espírito Santo; o livramento do poder e pena do pecado mediante o arrependimento do pecador para com Deus e fé no Senhor Jesus Cristo; o poder e promessa de Cristo para guardar os salvos; as suas ordenanças, na ordem própria de sua significação; a igreja como um só corpo espiritual para os salvos; um inferno de miséria eterna e de sofrimentos contínuos para os que não se arrependerem.
Os batistas podem confraternizar com os cristãos que não aceitam senão parte dessas doutrinas, mas não como membros das suas igrejas. Podem eles ser salvos e não ser membros de uma igreja batista. Nós não nos constituímos em juízes da sua religião; recorremos ao Novo Testamento quanto ao assunto de confraternização eclesiástica. Segue-se que um membro inteligente de uma igreja batista nunca poderá unir-se com quem quer que seja que repudie essas doutrinas, sem violar a sua consciência. Segue-se também que nunca poderá haver união orgânica das igrejas e nem sequer o intercâmbio de membros, nem ?comunhão livre? enquanto não chegarem todos à unidade da fé. ?Acaso andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?? (Amós 3:3).
e) Um Corpo Ligado por um Pacto Para Fazer o Que Cristo Ordenou
Aqui, além da doutrina, encontramos atos. O mandamento repetido, reforçado e inevitável foi ?Ide?, ?fazei discípulos?, ?batizai? e ?ensinai? (Mateus 28:19-20). Omitir o ?fazei discípulos de todas as nações? significa tirar toda a vida à Grande Comissão. Quem fizer isso violará a confraternização com os verdadeiros batistas e negará a Cristo. Portanto, uma igreja batista é essencialmente missionária. O mandamento de Cristo constitui a ordem de marcha; as suas armas espirituais constituem a armadura; os confins da terra são o seu objetivo.
Esse privilégio deve ser incutido no coração de todos quantos fazem parte da igreja. Muitíssimas vezes essa ordem é recebida e negligenciada pelos crentes, até que venha um choque acorda-los para o esforço missionário, como a perseguição que espalhou os membros da igreja em Jerusalém. Pena é que muitos nunca despertem. Vivem como parasitas missionários; morrem sem causar tristeza na igreja e vão receber uma coroa sem estrelas. Suas almas estão salvas, mas suas obras perecem. Eles são salvos, ?todavia, como pelo fogo? (I Coríntios 3:15). Jesus está dizendo a alguns dos muitos ortodoxos: ?Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus? (Mateus 7:21). ?E porque me chamais: Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu vos digo?? (Lucas 6:46)
f) Um Corpo Cooperando com Outros, de Semelhante Natureza nos Empreendimentos do Reino
Há um provérbio que diz: ?Cada qual com seu igual?. Esse princípio determina a decisão de se fazer parte da igreja. Devia também determinar a cooperação na igreja. Esse mesmo princípio conserva e multiplica as espécies de pássaros, de animais e de plantas. Os que vivem e crescem em grupo muitas vezes apertam tanto os outros que estes desaparecem, e aqueles tomam conta do terreno. Esta é uma lição que deve ser escrita em letras grandes, de modo que ?possa ler quem passa correndo? (Habacuque 2:2).
Paulo louvou as igrejas da Macedônia pela prontidão em ajudar. Ele foi acompanhado por membros de outras igrejas cooperadoras que participaram do trabalho beneficente. A tarefa de cuidar milhares de santos pobres em Jerusalém era demasiadamente grande para uma só igreja, embora fosse a generosa igreja em Antioquia. A grande tarefa constituiu o desafio; o espírito de serviço aceitou-o, num esforço unido. Cooperaram.
3. DISTINÇÃO ENTRE O REINO DE DEUS E A IGREJA
Resta ainda mais um tópico para ser tratado neste capítulo. A distinção ou diferença entre reino e igreja. Nisso há muitos pensamentos vagos e confusos. Auxiliar-nos-á, na elucidação do assunto, a lembrança de que a idéia contida na palavra Basiléia -? reino ? é diferente da idéia contida em ekklesia. O reino dos céus, o reino de Deus e o reino de Cristo são a mesma coisa no Novo Testamento. Eles querem dizer o domínio sobre o qual Cristo reina e a soberania que ele exerce naquele domínio. Às vezes o reino quer dizer o território, outras os atos de reinar; e finalmente ambas as coisas. O reino é maior do que a Igreja como assembléia local ou como instituição. O reino existe agora, enquanto a igreja na glória está no futuro. Na eternidade, o reino e a igreja na glória poderão tornar-se uma só realidade. A Igreja é visível, o reino, invisível.
As igrejas são organizações cuja missão é estabelecer e estender o reino. Elas fazem isso: 1) testemunhando das verdades históricas do Novo Testamento; 2) proclamando o evangelho a todas as nações; 3) pela exibição e divulgação dos princípios do cristianismo. Nem todos os membros das igrejas locais estão no reino. Todos os membros do reino são membros das igrejas locais. Nem todos os que estão salvos estão filiados às igrejas, mas deviam estar.
?Batiza-te? é um mandamento para o indivíduo. Um ato que deve ser feito em obediência, tanto exterior como interiormente. É obrigatório a todo o crente. O modo de Jesus dizer4 que os crentes fariam parte de uma igreja era: ?Nem os que acendem uma candeia a colocam debaixo do alqueire, mas no velador, e assim ilumina a todos que estão na casa? (Mateus 5:15). O velador é a Igreja. ?Os sete candeeiros são as sete igrejas? (Apocalipse 1:20).
A IGREJA ? MÃE EM JERUSALÉM
A Páscoa e o Pentecostes eram grandes festividades entre os judeus. Decorriam exatamente sete semanas entre as duas festas. Jesus foi crucificado um dia antes da Páscoa e o Espírito Santo veio no dia de Pentecostes. As coisas que Jesus fez e ensinou em pessoa até o dia da Páscoa, continuou a fazer e ensinar, pelo Espírito, por intermédio da Igreja, depois do Pentecostes. Houve um interregno de cinqüenta dias. Durante os primeiros quarenta dias, ele se manifestou vivo a muitos, com infalíveis provas, aparecendo a Maria Madalena e a outras mulheres; a Pedro; a dois a caminho de Emaús; aos apóstolos na ausência de Tomé; novamente aos apóstolos, estando Tomé presente; aos sete à beira-mar; aos onze no monte da Galiléia; a Tiago; a mais de quinhentos irmãos, e, finalmente, aos discípulos, no dia de sua ascensão. Essas aparições trouxeram paz e segurança aos seus discípulos perturbados e converteram seus irmãos duvidosos. Durante os últimos dez dias do interregno, cento e vinte discípulos esperaram o cumprimento da promessa do Pai. Eles não são chamados Igreja antes de Atos 5:11, mas de fato eram uma igreja. A instituição que Jesus estabeleceu primeiro formou-se em igreja e localizou-se na cidade de Jerusalém.
Examinaremos alguns aspectos ou características dessa primeira igreja:
1. FRATERNIDADE
a) Os elementos constituintes da igreja eram cosmopolitas ---- Estavam incluídas, no pequeno números de membros, todas as classes e condições sociais. Senhoras distintas, como Joana e Suzana, da corte de Herodes, estavam em pé de igualdade com Maria, a viúva de um carpinteiro. Um advogado erudito, como José de Arimatéia, e um estudioso profundo, como Nicodemos, confraternizavam com pescadores, como Pedro e João. Simão, o zelote, e Mateus, o publicano, conviviam amigavelmente na mesma organização. O número de membros aumentou rapidamente e logo a igreja recebeu um rico proprietário, José de Chipre, e pobre mulheres judias, que falavam o grego. Nenhum saduceu creu em Jesus, enquanto ele estava vivo, mas é provável que houvesse saduceus ?na multidão dos sacerdotes que foram obedientes à fé? (Atos 6:7); assim sendo, os fariseus e saduceus convertidos se nivelaram e se uniram pelos laços cristãos.
b) Não havia classes
Uma igreja só de ricos, ou uma igreja só de pobres é uma anomalia. Uma igreja não existe exclusivamente para uma só classe. Numa igreja local, como em nenhum outro lugar da terra, deve existir deveras uma união perfeita entre ricos e pobres, pois Cristo é o Senhor de todos eles. A fraternidade humana é um sonho irrealizável fora de Cristo. Ele é o único vínculo de união. Nele todas as regras fictícias desaparecem. O leão forte e feroz e o cordeiro tímido e frágil se deitam juntos em Cristo. As igrejas primitivas dispunham de mais poder para realizar a fraternidade humanas do que todas as filosofias de todas as escolas e atuação de todos os governos.
c) Predominavam a democracia e a fraternidade
O conflito entre as classes acabar-se-ia se todos ouvisse a voz de Cristo, dizendo: ?Todos vós sois irmãos? (Mateus 23:8). A primeira igreja em Jerusalém demonstrou muito bem os ensinos do Mestre. E as suas verdadeiras igrejas hoje manifestam essa mesma verdade. Numa Grande Campanha Batista, a igreja, à qual fora pedida a maior participação financeira, levantou mais do que a quantia pedida e prometida. Por isso o espírito de gratidão manifestou-se fortemente. No domingo da vitória, o pastor abandonou o seu sermão e pediu a qualquer pessoa que quisesse falar para usar da palavra. Seis irmãos atenderam. Dois negociantes, um advogado, um professor, um missionário e um operário. Nenhum repetiu o que o outro disse, e nenhum falou mais que seis minutos. O último a falar foi o operário. Disse ele: ?Desejo dizer, aos novos membros e pessoas estranhas, que sou o membro mais insignificante desta igreja. Aqui há pessoas que possuem milhões, enquanto eu nada tenho; mas todos me tratam como irmão?. Belo testemunho, esse da fraternidade cristã!
Ser-me-ia impossível exagerar o espírito de democracia e fraternidade da igreja em Jerusalém.
2. AUTORIDADE
O governo da igreja era congregacional e democrático. Examinemos o primeiro capítulo de Atos dos Apóstolos. Os apóstolos queriam encontrar alguém para ocupar o lugar de Judas. Pedro tomou a palavra e citou uma profecia de Davi e aplicou ao caso, explicando os predicados necessários a um apóstolo. Incidentalmente, disse que Judas caiu de uma posição, e não da salvação. Pedro não se atreveu a sugerir um nome e, muito menos, a nomear um apóstolo. Maria, a mãe de Jesus, estava presente, mas não era considerada superior aos outros. Aliás, desse momento em diante as Escrituras não mais se referem a ela. Isso é um golpe na mariolaria.
A história é clara e positiva, ao relatar a escolha do novo apóstolo: 1) O caso foi submetido a todos os irmãos e irmãs; 2) Barnabé e Matias foram sugeridos como candidatos; 3) oraram ao Senhor para que se manifestasse qual era a sua escolha; 4) escreveram ?Barnabé? numa tábua, e ?Matias? e outra e as misturaram bem. A que tinha o nome Matias saiu primeiro. Foi a última vez que os crentes recorreram à sorte. O Espírito Santo vem imediatamente como o guia e agora temos melhores meios de sabermos a vontade de Deus. A palavra traduzida por sorte é kleros (clero). Daí vem o termo ?clero? para o ministério, que, infelizmente sobreviveu.
Depois que o número de membros dessa igreja se multiplicou grandemente, os negócios continuaram sendo dirigidos pelos processos democráticos, como quando havia só cento e vinte membros. ?E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete varões de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais encarregaremos desse serviço. Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra. O parecer agradou a todos e elegeram a Estevão... e os apresentaram perante os apóstolos? (Atos 6:2-6). Esses cinco versos contêm cinco referências à congregação geral dos crentes e ensinam claramente que a multidão de crentes se governava a si mesma. Dificuldades internas se levantaram e os apóstolos expuseram o assunto perante a igreja. Foi resolvido criar uma função para cuidar dos aspectos temporais da igreja. Os sete mão constituíram uma ordem no ministério, mas uma classe de oficiais para aliviar os apóstolos e pastores do cuidado das coisas temporais, a fim de que pudessem dedicar-se à oração e à pregação.
Tiago, irmão de nosso Senhor, tornou-se pastor dessa primeira igreja. O resto da história, nos Atos dos Apóstolos, harmoniza-se com essas duas eleições: a do apóstolo e a dos diáconos. A igreja dirigia os seus próprios negócios. O fato de Pedro e João irem a Samaria não contradiz o fato de ser a igreja uma democracia. Eles eram apóstolos, com dons e poderes especiais, e não deixaram sucessores. A chamada ?sucessão apostólica? é mera fantasia. O ?episcopado histórico? é uma relíquia do romanismo.
3. UNIÃO
Vejamos, mais uma vez, aquele antigo grupo de cristãos, no cenáculo. Uma união sob quatro aspectos os caracterizava.
a) Unidos no mesmo lugar ? ?Estavam todos reunidos no mesmo lugar? (Atos 2:1). Todos os que criam estavam juntos. Os membros daquela congregação tinham o hábito de ir à igreja e perseveravam rigorosamente neste hábito. Bem mais tarde, porém, chegou o triste dia em que os crentes precisavam ser exortados: ?...não abandonando a nossa congregação, como é costume de alguns? (Hebreus 10:25).
Ir à igreja é um bom hábito. Muitas bênçãos advêm dele. John C. Williams, diácono da Primeira Igreja Batista de Richmond, freqüentava assiduamente as reuniões de sua igreja. Chegou a percorrer a pé quatro quintos da distância do percurso do redor da terra, indo à sua igreja e voltando. Um genro dele lhe perguntou, certa vez, quando ele ir sair em noite tempestuosa para ir ?a igreja:
- Senhor Williams, o senhor está sempre disposto a ir à igreja?
- Não, nem sempre; mas é meu costume ir sempre porque devo ir. A maior parte das vezes é para mim uma delícia; algumas outras é meramente um dever.
b) Unidos no mesmo propósito ? Os discípulos estavam todos de comum acordo. Puseram a sua mente numa só coisa ? a vinda do Espírito Santo prometido. Por curiosidade, haviam interrogado a Jesus quando ele fizera a promessa do Espírito: ?Senhor, é neste tempo que restauras o reino a Israel?? (Atos 1:6). Jesus reprovou-lhes severamente a curiosidade. Não pertencia a eles saber os tempos (o chronos), o período longo), nem as estações (o kairos, o período curto). A coisa mais importante para eles era estarem habilitados para o serviço. ?Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo? (Atos 1:8). Tendo-lhes sido mandado esperar até que viesse o Consolador, obedecerem fiel e unanimemente. Sabiam o que precisavam e concordemente passaram a esperar. Passaram-se alguns dias sem qualquer sinal do cumprimento da promessa, mas eles continuaram esperando, juntos, até que veio o Espírito Santo. O Espírito Santo não vem sobre uma igreja dividida. Oxalá houvesse hoje essa união de propósito! È melhor que haja poucos membros, em harmonia e singeleza de coração, do que um grande número, mas dividido por dissensões e desarmonia. ?Com uma só mente no Senhor? (Filipenses 2:1-11), ?guardando a unidade do Espírito no vínculo da paz? (Efésios 4:3), são as evidência da força de uma igreja.
c) Unidos em oração ? ?Todos estes perseveraram unanimemente em oração? (Atos 1:14). A igreja em Jerusalém era uma igreja de oração. Os dez dias de espera foram bem empregados em oração. Deus estava mais pronto a abençoa-los do que eles estavam para receber a bênção. Mas a oração preparou-os para recebe-la. Este hábito de oração ficou estabelecido. Eles constantemente recorriam à oração (Atos 2:42). Os que oram habitualmente vivem vitoriosamente. Dificuldades vieram. O sinédrio proibiu a pregação e houve perseguição. Os discípulos recorreram à oração. Pediram a Deus que os auxiliasse a testemunhar com destemor (Atos 4:23-31).
Pela oração, a igreja triunfou da perseguição religiosa. As dificuldades se multiplicaram. Um apóstolo foi morto a espada, e outro aprisionado. A igreja buscava incessantemente recurso na oração (Atos 12:5-12). Deus livrou Pedro da prisão e dos soldados. Pela oração, a igreja triunfou da perseguição. A boa música aumenta o interesse do culto. Ler as Escrituras é instrutivo. A boa preparação atrai. Mas a oração genuína e mais poderosa do que tudo isso. É a força mais poderosa que a igreja pode empregar.
d) Unidos em poder ? Línguas repartidas, como que de fogo, pousaram sobre cada um deles. Não eram línguas de fogo. Eles não poderiam suportar o fogo. Eram línguas como que de fogo, repartidas como chamas. ?E todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas? (Atos 2:4) Essa experiência foi comum a todos. O que foi perdido na torre de Babel, foi recuperado no dia de Pentecostes. Jesus cumprira a sua palavra; as orações foram respondidas.
As evidências da presença do Espírito Santo foram externas: 1) Houve o som de vento, indicando o poder penetrante do Espírito para trazer a vida. ?O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito? (João 3:8). 2) Apareceram línguas repartidas, indicando o poder purificador do Espírito. Eles viram o fenômeno. 3) Começaram a falar em outras línguas, de tal modo que as multidões das diferentes partes do mundo ouviram o evangelho na sua própria língua. A intenção do Espírito era que eles fossem testemunhas de Cristo. As multidões ?maravilhara-se?; todos ficaram atônitos e confundidos (Atos 2:7-13).
Houve, também, evidências internas da presença do Espírito Santo: 1) Obtiveram uma compreensão melhor das Escrituras. O povo pensava que os discípulos estivessem embriagados. Pedro citou pormenorizadamente a profecia que então se cumpria. Estavam embriagados, mas sua embriaguez era espiritual; o vinho que eles beberam era o novo vinho do reino. Pedro pregou um sermão curto, registrado em vinte e dois versículos, mas forte, incisivo e convicente. Dez versos contêm citações de Joel e Davi, e os outros doze contêm uma interpretação e aplicação dos dez primeiros. 2) Tornaram-se possuidores de uma coragem santa. Todos os apóstolos fugiram quando Cristo foi preso. Pedro o negara três vezes. Agora, que mudança! Pedro e João estão perante os juízes do sinédrio sem receio algum, não se assustando com as suas ameaças. Os anciãos, escribas, sacerdotes, oficiais e outros ficaram profundamente impressionados ?vendo a intrepidez de Pedro e João? (Atos 4:13). Os crentes reunidos na casa de João Marcos oraram assim, após as ameaças a Pedro e João: ?concede aos teus servos que falem com todas a intrepidez a tua palavra? (Atos 4:29). Assim, eles continuaram falando. 3) Foram todos de um zelo ardente. Uma paixão e uma energia nova vieram com o Espírito. As redes de pescar perderam o seu atrativo. A perseguição foi um vento que espalhou a semente. Eles foram por toda a parte anunciando a palavra. Gibbon, o historiador, refere-se ao zelo ardente dos crentes primitivos como uma das causas da rápida divulgação do cristianismo através do Império Romano. 4) Houve resultados maravilhosos. O poder espiritual é uma força real dentro do coração. Vem de cima, habita no crente e opera por meio dele. Pela pregação de um sermão, três mil almas se converteram (Atos 2:37-41. Dois capítulos mais adiante, lemos que cinco mil homens creram (Atos 4:4). Ainda mais adiante, dois capítulos, lemos: ?...se multiplicava muito o número dos discípulos em Jerusalém e muitos sacerdotes obedeceram à fé (Atos 6:7). Esses grandes resultados foram conseguidos no breve espaço de três anos e meio.
4. REVESTIMENTO ESPIRITUAL
a) A relação entre o batismo do Espírito e o batismo da água - Jesus não menosprezou o batismo da água, quando disse: ?Porque na verdade João batizou em água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias? (Atos 1:15). Por uma comparação, ele os preparou para a esfera mais alta em que haviam de entrar mais tarde. A comparação manifesta uma tríplice diferença: 1) João batizava num elemento ? água. Eles, os discípulos, porém, haviam de ser batizados numa Pessoa ? o Espírito Santo. Primeiro, o que é natural; em seguida, o que é espiritual. 2) O batismo de João era administrado uma vez e os crentes saíam da água. Eles haviam de ser batizados, porém, numa pessoa em quem haviam de permanecer. 3) O batismo de João simbolizava o rompimento com o pecado. O batismo no Espírito simbolizava a união com Cristo. Certamente o batismo não foi substituído nem abolido, como os quacres ensinam. Os convertidos no dia de Pentecostes foram batizados do mesmo modo como haviam sido os primeiros convertidos: ?De sorte que foram batizados os que receberam a sua palavra? (Atos 2:41). A prática do batismo depois de Pentecostes não foi alterada, como provam os seguintes passagens: ?Mas, quando creram em Filipe, que lhes pregava acerca do reino de Deus e do nome de Jesus, batizavam-se homens e mulheres? (Atos 8:12). Paulo foi batizado depois de receber o Espírito Santo (Atos 9:18). Cornélio foi batizado depois que o Espírito caiu sobre ele (Atos 10:44-48). O batismo e a obra do Espírito Santo andavam juntos. Os samaritanos foram batizados e depois receberam o Espírito Santo. Paulo e Cornélio receberam o Espírito Santo e depois foram batizados. Não h.a, no Novo Testamento, afirmação alguma que nos autorize a abolir o batismo, ou alterar-lhe a forma.
b) O Espírito não entrou no mundo no dia de Pentecostes ? Ele se movia sobre a face das águas, segundo lemos no primeiro capítulo de Gênesis. Ele contendeu com os homens perversos, como se vê no capítulo 6 de Gênesis. Davi orou: ?Não retires de mim o teu Santo Espírito? (Salmos 51:11). Os profetas indagavam qual o tempo, ou qual a ocasião que o Espírito de Cristo, que estava neles, ?indicava? (I Pedro 1:11). Zacarias e Isabel profetizaram sob a inspiração do Espírito. Jesus, antes de subir ao Pai, assoprou sobre os seus discípulos e disse: ?Recebei o Espírito Santo? (João 20:22). Há, entretanto, uma diferença na função e obra do Espírito Santo na nova dispensação. Na velha dispensação, um homem mau como Saul tinha o espírito de profecia. Na nova dispensação porém, é dado o Espírito só aos homens regenerados, e os conserva como tais. O Espírito está neles, e não sobre eles. Simão, o mago, poderia obter o Espírito na velha dispensação, mas não podia na nova. Outra observação: No Velho Testamento, o Espírito era dado só aos oficiais, juízes, reis e profetas (Juízes 15:14). No Novo Testamento, ele é para todos os crentes: ?Derramarei o meu Espírito sobre toda a carne?: velhos e moços, homens e mulheres, escravos e livres (Joel 2:28-29). No Velho Testamento, o Espírito do judaísmo não era missionário. No Novo Testamento, ele é dado, a fim de habilitar os crentes para o serviço cristão. Ele tinha a mente do crente; convence o pecador do seu pecado; manda obreiros para sua seara; sela a pregação de sua palavra para a salvação. Duas verdades aparecem em Atos dos Apóstolos a respeito de todo o obreiro guiado pelo Espírito: 1) era dirigido à própria pessoa. O anjo do senhor disse a Filipe que fosse ao deserto e ele achou uma alma ansiosa de receber a mensagem; Paulo foi providencialmente proibido de pregar na Bitínia e foi enviado à Europa. 2) Ele inspirava a palavra exata a ser falada. Filipe pregou Jesus ao eunuco, e ele professou a sua fé. O Senhor abriu o coração de Lídia, e ela atendeu às explicações de Paulo.
5. ORDENANÇAS
a) Uniformidade na prática do batismo ? A comunidade cristã primitiva praticava duas cerimônias, chamadas ordenanças: batismo e ceia. O batismo era administrado aos que recebia a palavra. O grande mandamento de Jesus era plenamente obedecido: ?Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo?. (Atos 2:38). O batismo exigia fé. ?De sorte que foram batizados os que receberam a sua palavra? (Atos 2:41). Arrependimento e fé são a parte humana; a regeneração é a parte divina. Quando um pecador se arrepende e crê é regenerado pelo Espírito de Deus, e, uma vez regenerado, está em condições de ser batizado. Aliás, isso é um dever que imediatamente se lhe impõe. A salvação precede as ordenanças. Abraão foi justificado antes de saber qualquer coisa ritual mosaico. João Batista, não vendo frutos de arrependimento em alguns que queriam se batizados por ele, recusou-os (Mateus 3:7-10). A nota dominante da sua pregação era: ?Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus? (Mateus 3:2). Ele pregava primeiro o arrependimento, depois o batismo, para remissão dos pecados. Jesus e seus apóstolos faziam discípulos antes de batizá-lo (João 4:1). A igreja em Jerusalém observava a mesma ordem. Os membros daquela igreja eram coerentes nessa prática em todos os lugares aonde iam. O diácono Filipe tornou-se evangelista. Os que se convertiam com sua pregação eram batizados em nome de Jesus Cristo, isso depois de crerem nas boas-novas do reino de Deus. Ele conduziu um homem ansioso ao conhecimento de Jesus Cristo e só depois é que o batizou (Atos 8:34-39). A descrição ampla da realização da ordenança, nesse último caso, não deixa dúvida alguma quanto ao modo de ser ela ministrada. Quanto à significação do ato, era uma prova da fé do eunuco e o penhor de sua lealdade a Jesus Cristo. A missão do evangelista era pregar a Cristo e batizar aqueles que nele criam. Pedro aconselhou a seus companheiros que batizassem os gentios convertidos em Cesaréia (Atos 10:47). A remissão batismal, ensinada por alguns, faz com que a salvação dos crentes dependa de uma ordenança e de mais algumas outras coisas. Entretanto, as Escrituras ensinam que a salvação é toda de graça, pela fé.
Devemos notar duas idéias a respeito da significação das palavras de Pedro, em Atos 2:38: 1) Ele não podia contradizer o seu Senhor. O Mestre ordenara ?que em seu nome se pregasse o arrependimento para remissão dos pecados, a todas as nações? (Lucas 24:47). Não ligava o batismo com a remissão do pecado. O que ele disse foi que o seu sangue fora derramado a favor de muitos, ?em resgate de muitos? (Mateus 20:28). Se foi o seu sangue, então não foi a água do batismo. A significação da palavra de Pedro era análoga à de nosso Senhor em Marcos 16:16: ?Quem crer e for batizado será salvo; mas que não crer será condenado?. Não porque não esteja batizado, mas porque não crê. 2) Pedro não podia se contradizer. Três vezes em Atos dos Apóstolos, depois do Pentecostes, ele menciona a remissão dos pecados, e em nenhuma parte a liga com o batismo: ?Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados? (Atos 3:19). ?Deus, com a sua destra, o elevou Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e remissão de pecados? (Atos 5:31). ?A ele todos os profetas dão testemunho de que todo o que nele crê receberá a remissão dos pecados pelo seu nome (Atos 10:43). A conclusão lógica da doutrina da regeneração batismal, quando aplicada à ceia do Senhor, estabelece aquela outra, da transubstanciação.
A doutrina da remissão batismal produz dois maus resultados opostos: 1) pospor o batismo, tanto quanto for possível, a fim de ter a certeza de que todos os pecados estão purificados; 2) o batismo de crianças, a fim de que elas não morram e se percam. Dois dos maiores males advindos ao mundo têm sido a união da igreja com o Estado e a perseguição religiosa; ambos se originaram na doutrina da regeneração batismal. Alguns dão demasiada importância ao batismo, enquanto outros, por seu turno, reduzem-lhe o justo valor. A primeira igreja praticava-o como ato de obediência por parte dos salvos.
b) A ceia do Senhor era a outra ordenança - Os crentes da primeira igreja perseveram no partir do pão. Uma nova ordenança havia sido instituída por Jesus na noite em que fora traído. A Páscoa pertencia à Teocracia da Velha Dispensação, enquanto a Ceia do Senhor simbolizava a relação vital entre o seu Rei Invisível. Jesus prestou, naquela noite memorável, pela última vez, homenagem ao passado e estabeleceu um novo símbolo, para ser observado no futuro. A ceia concretizava o Novo Concerto, que era mais espiritual que o antigo e ao mesmo tempo era tão solene e impressiva como a Páscoa. A sua significação, para os crentes, era profunda e preciosa. Eles viam, nessa ordenança: 1) Um memorial permanente do seu Senhor; 2) a manifestação objetiva de sua dependência do sacrifício de Cristo pelo pecado; 3) uma lembrança constante da necessidade de sua comunhão com ele para seu sustento espiritual; 4) o laço de uma nova fraternidade; 5) o anúncio contínuo da volta de Jesus ao mundo.
c) O batismo e a ceia eram as duas únicas cerimônias da nova comunidade ? Foram divinamente criadas tanto em relação ao número quanto à sua natureza. A igreja em Jerusalém ministrava o batismo uma só vez aos seus membros e a ceia era-lhes ministrada freqüentemente; talvez uma vez por semana ou até diariamente. Nenhuma autoridade humana pode aumentar o número das ordenanças. Só há estas duas, e não pode haver mais. Além disso, nenhuma autoridade humana pode mudar a forma ou significação dessas ordenanças. O batismo é o símbolo de que nós estamos em Cristo; a ceia é o símbolo de que Cristo está em nós.
6. O SUSTENTO FINANCEIRO
a) Unidade de bens, socialismo? ? Houve uma situação na igreja em Jerusalém que tem suscitado grande controvérsia e confusão de idéias. Trata-se da comunidade de bens, conforme Atos 2:44 e 4:32-37. Alguns estabelecem, nesse caso, apoio cristão ao socialismo. Os socialistas advogam a nacionalização das indústrias e a abolição das propriedades particulares. Argumentam que essa passagem ensina que os ricos e os pobres devem pôr toda a sua propriedade num funmdo comum, de que todos participem igualmente. Eles não levam em conta o fato bem reconhecido de que, se a igualdade de bens fosse estabelecida hoje, amanhã haveria desigualdade, se aos homens fosse permitido negociar.
Será que essa passagem ensina realmente o socialismo? Admitindo-se que sim, ela ensinaria um socialismo voluntário. Os que os crentes fizeram não foi obediência a qualquer lei ou mandamento divino. O conselho que Jesus deu ao jovem rico não vai de encontro a essa asserção, porque os bens do moço impediam a sua capacidade espiritual. E Jesus, conhecendo a sua fraqueza, deu-lhe aquele conselho. Noutras circunstâncias, Jesus deu conselhos diferentes àqueles que buscavam salvação. Sempre procurava remover o obstáculo entre o pecador e ele. Não obstante, Jesus não exigiu de José de Arimatéia, por exemplo, que vendesse os seus bens; foi no novo e caro sepulcro dele que Jesus teve sepultamento decente. Não exigiu, do dono do horto, perto de Jerusalém, que o vendesse; pelo contrário, foi ali que Jesus achou um retiro sossegado, separado do barulho e conflito da cidade, e um lugar de comunhão com o Pai. Um rico amigo de Jesus possuía na cidade santa, uma casa bastante ampla, onde se pôde preparar um banquete para treze pessoas, mediante aviso de poucas horas de antecedência. Os pais de Jesus eram pobres; ele mesmo permaneceu pobre; advertia os ricos quanto aos perigos da riqueza, mas também os salvava e com eles cultivava amizade.
A melhor interpretação da Bíblia é a própria Bíblia. O capítulo 5 de Atos desfaz toda a dúvida quanto à comunidade de bens e mostra que esse costume era voluntário. Pedro disse a Ananias: ?Guardando-a (a propriedade) não ficava para ti?? (versículo 4). Eis aqui a autoridade positiva do direito da propriedade particular. ?E vendida, não estava em teu poder?? Ele não foi obrigado, por qualquer lei, a dar tudo. O que ele queria era a reputação de ser muito liberal, sem que efetivamente o fosse, e Deus o matou, não porque não desse tudo, mas porque mentiu à igreja e a Deus. Deus nos trata com mais misericórdia agora do que naquele tempo. Se Deus matasse todas as pessoas nas igrejas de hoje que mentem quanto ao que podem dar e realmente dão, os mortos pelo Senhor seriam muitos. É provável que não houvesse, em certas igrejas, número suficiente para realizar-se uma reunião de negócios.
Se o leitor desejasse mais provas, bastaria dizer que nenhuma outra igreja do Novo Testamento praticou a comunidade de bens. Tanto Jesus como Paulo ensinaram que o crente é meramente um despenseiro dos bens em seu poder, e que deve usá-los sabiamente, em benefício próprio e dos seus semelhantes, mas não ensinaram o socialismo. Mais ainda, essa única experiência fracassou. As outras igrejas mandaram espontaneamente socorro aos crentes pobres em Jerusalém. Paulo organizou cuidadosamente muitas outras igrejas independentes, em ação fraternal e cooperativa, que substituiu a fracassada comunidade de bens em Jerusalém. Essa comunidade não foi um bom exemplo de socialismo ideal.
Mas não devemos perder de vista a força dessa comunidade de bens. Ela fala bem alto da fé, entusiasmo e devoção dos crentes, que estavam prontos a dar tudo, para auxiliar a causa. Esperavam para breve a volta de Cristo à terra. Pela grande alegria que sentiram por causa do Pentecostes, ?ninguém dizia que coisa alguma das que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns? (Atos 4:32). As circunstâncias eram especiais: um grande avivamento se operava; alguns perderam os bens em virtude de se tornarem cristãos; milhares deles ficaram mais tempo em Jerusalém do que esperavam; estavam sem agasalho e sem alimento e a igreja os repartia entre eles, e todos punham seus haveres à disposição da igreja, para atender a todas as necessidades. Presenciei um espírito semelhante na reunião de uma associação batista, em Virgínia, onde milhares de pessoas comiam em mesas improvisadas. Esta forma de socialismo também eu adotaria.
7. TRINFO NA PERSEGUIÇÃO
a) A igreja triunfou da perseguição: saduceus, fariseus, Estado ? Nosso salvador disse, aos seus discípulos, que deviam estar preparados para enfrentar perseguições. E de fato eles estavam preparados quando elas vieram. Disse-lhes também que não deviam recear quanto à defesa da sua causa, porque o Espírito Santo lhes daria as palavras que tivessem de dizer. Jesus estaria com eles nas horas de provações em todo tempo e lugar. As palavras de Jesus quanto à perseguição e preservação dos seus discípulos foram em breve cumpridas.
Primeiro, os saduceus ficaram enfurecidos por causa da ressurreição de Jesus. Eles eram materialistas. O seu credo negativo era: não há anjo, nem espírito, nem ressurreição, nem juízo final. Pedro, como testemunha pessoal, pregava habitual e persistentemente a ressurreição de Cristo. No dia de Pentecostes, disse: ?Ora, a este Jesus, Deus o ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas? (Atos 2:32). No alpendre de Salomão, afirmou: ?Matastes o autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, do que todos nós somos testemunhas? (Atos 3:15) ?Deus suscitou a seu Servo, e a vós primeiramente vo-lo enviou para que vos abençoasse, desviando-vos, a cada um, das vossas maldades? (Atos 3:26). Perante o sinédrio, declarou: ?Seja conhecido de vós todos, e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, nesse nome está este aqui, são diante de vós? (Atos 4:10). ?Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça? (Atos 4:33). Perante o sinédrio pela segunda vez, disseram: ?O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, ao qual vós matastes, suspendendo-o no madeiro; sim, Deus com sua destra, o elevou Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e remissão de pecados. E nós somos testemunhas destas coisas, e bem assim o Espírito Santo, que Deus deu àqueles que lhe obedecem? (Atos 5:30-32). Seis vezes, em cinco capítulos, se prega a ressurreição. Essa doutrina fulminava a doutrina dos saduceus, aniquilava a sua influência, punha-lhes em perigo a posição e a vida. Por isso, resolveram combatê-la. A força física, e não os argumentos, era a sua arma predileta. Duas vezes os apóstolos foram presos; na primeira vez, foram libertados sob ameaças; na segunda, o conselho de Gamaliel salvou-lhes a vida, se bem que não os tenha livrado de serem açoitados. Ameaças e prisões não impediam a pregação, nem destruíam a verdade. O número de discípulos em pouco foi acrescido de mais de cinco mil pessoas, justamente na ocasião em que os apóstolos foram presos pela primeira vez. Foram, dados, à igreja, dons milagrosos; os hipócritas foram mortos, o povo se maravilhava dos feitos dos apóstolos e eles se regozijavam com isso e também com o fato de serem considerados dignos de sofrer desonra pelo nome de Jesus, que lhes dissera: ?E sereis odiados de todos por causa do meu nome? (Mateus 10:22). A alegria e heroísmo com que eles se houveram vulgarizava a nova causa e derrotava os saduceus. A pregação convincente, a boa maneira de viver por parte deles e as obras poderosas recomendavam a sua causa ao povo. Quanto mais perseguidos eram, tanto mais as conversões se multiplicavam.
Segundo, os fariseus ficaram enfurecidos pela pregação e milagres de Estevão. Pela pregação e conduta. Ele feria os arraigados preconceitos farisaicos. A questão agora já não era a ressurreição, mas o valor e a permanência da Velha Dispensação. Estevão provou a superioridade do sacrifício de Cristo sobre o sacerdócio e o templo; os milagres que operava eram credenciais divinas da doutrina que ensinava. A discussão, e não a força, era a que seus inimigos empregavam. Discutiam com ele, mas não podiam resistir à sabedoria e ao espírito com que falava. Derrotados na discussão, os fariseus subornaram testemunhas que o acusaram de blasfêmia. A sua nobre defesa exacerbou-lhes a ira. Rangeram os dentes, taparam os ouvidos, a fim de não ouvirem a voz do pregador, e, arremetendo-se unânimes contra ele, expulsaram-no da cidade e o apedrejaram. Porém, a luz que brilha no rosto dos anjos também iluminou o semblante dele. Os céus abriram-se perante os seus olhos. Jesus, representado em outros lugares como assentado junto ao trono de Deus, levantou-se, ficou de pé, como que em defesa de seu discípulos martirizado. Dos lábios do moribundo Estevão subiu, a Deus, uma súplica a favor dos seus perseguidores. Um dos principais antagonistas, Saulo de Tarso, nunca pôde livrar-se daquela cena tremendamente trágica e acusadora. A influência foi tal que alguém afirmou: ?Se Estevão não orasse daquela maneira, a igreja não teria Paulo?.
A perseguição, que começou limitada a um indivíduo, estendeu-se como um temporal e expulsou todos os crentes de Jerusalém, exceto os apóstolos. Os perseguidos, porém, iam pregando por onde andavam. As multidões escutavam unânimes ao mais poderoso dos fariseus convertido, que foi Paulo. A Igreja ganhava o seu obreiro mais útil.
Os saduceus e fariseus fracassaram, mas o Estado tentou outros meios. Herodes Agripa, o rei, estendeu sua mão para fazer mal a alguns da igreja. Tiago foi por ele morto a espada. Pedro foi metido no cárcere; mas as cadeias não puderam com o homem protegido por Deus, o qual foi libertado pelo anjo. ?O anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem, e os livra? (Salmos 34:7). Um anjo libertou Pedro da prisão e outro matou a Herodes. Os bichos comeram-lhe o corpo corrompido. A despeito de toda a perseguição, a palavra de Deus crescia em aceitação e os seus efeitos se multiplicavam. As armas usadas contra a igreja, fiel e corajosa, de nada valeram. A perseguição pelos saduceus terminou com o providencial conselho de Gamaliel. A perseguição farisaica terminou com a conversão do seu chefe, Saulo. A perseguição pelo Estado foi interrompida quando Deus feriu de morte a Herodes por haver aceitado honras divinas.
Não haverá, porventura, hoje em dia, demasiada concordância entre o mundo e as igrejas, devido à atitude complacente da parte de muitas delas? Não seremos n´sos tímidos demais no combate aos erros de doutrina e à iniqüidade do mundo? Cada pastor tem de escolher entre o ser um indiferente ou um profeta. Se ele é um indiferente, os ímpios o louvarão e exaltarão. Se ele é um profeta, pregador de um evangelho poderoso, sadio e puro, os liberais o chamarão de fanático. Mas, nesse caso, receberá a cora que não murcha. A propósito, nosso Salvador disse: ?Aí de vós, quando todos os homens vos louvarem! Porque assim faziam os seus pais aos falsos profetas? (Lucas 6:26). Uma igreja, ou um pregador, não deve ser belicosa, mas deve corajosa e fiel. O mesmo Deus que cuidou da igreja em Jerusalém, ainda vive e cuida dos que lhe pertencem.
A luta dos batistas, no Estado de Virgínia, ilustra essa questão. Eles foram a última denominação que apareceu nesse Estado quando ainda era uma colônia. A perseguição era muito forte. Quem mais sofreu foi essa denominação, mas em todos os anos de perseguição eles jamais recuaram de sua franca atitude em defesa das verdadeiras doutrinas. Algumas outras denominações dissidentes da religião oficial (anglicana) se satisfaziam com uma simples tolerância; mas os batistas nunca deixaram de pugnar pela completa liberdade re
APRESENTAÇÃO DO AUTOR
Este livro foi concebido durante o meu primeiro pastorado na Primeira Igreja Batista em Temple, Texas. Cogitei dele pelo espaço de dois anos, enquanto pastoreava a Igreja de Gaston Avenue, em Dallas, Texas. Porém, só depois de quinze anos decorridos pus em prática o plano de publicá-lo; isso porque os meus deveres pastorais e denominacionais me impediam de preparar convenientemente o original.
?A Igreja? do Novo Testamento?, seja qual for a significação desses termos, são temas que têm sido tratados por diversos autores. Esses livros, em grande parte, têm deixado o assunto onde Tácito deixou o seu herói ? no meio da ponte. As sete igrejas da Ásia, no Livro de apocalipse, são o tema de diversos livros interessantes, já publicados. As discussões acerca das igrejas mais importantes do Novo Testamento, aquelas que figuram na inauguração e propagação do cristianismo, as que ocupam a maior parte dos atos dos Apóstolos e que deram origem às grandes epístolas de Paulo, nunca tinham sido apresentadas em um só volume.
O propósito deste livro é mostrar a origem, o caráter, os princípios e as práticas das igrejas do Novo Testamento; mostrar a unidade que existia entre elas, no meio de grande diversidade de coisas e de ambiente; mostrar para os pastores, leigos, e igrejas da atualidade.
Tive grande dificuldade em decidir a ordem em que deveriam ser colocados os oito últimos capítulos. Os primeiros vieram, cronologicamente e geograficamente, na ordem em que se acham no livro. Depois de estudar os arranjos doutrinais, históricos e geográficos, optei pelo plano geográfico, isto é, começando com a igreja em Jerusalém e tomando as demais ordem até chegar à de Roma.
Havia diversos arranjos geográficos, que poderia seguir com respeito às igrejas na Galácia, Éfeso e Colossos, porém o que foi adotado parece-me que é o mais simples.
Não segui o pensamento de nenhum autor em particular, mas procurei externar as minhas idéias, baseado no meu estudo do Novo Testamento e no exame que fiz de obras de outros autores sobre o assunto. Examinei diversas traduções da Bíblia e usei aquelas que mais fielmente, a meu ver, exprimem as verdades.
Geo. W. MacDaniel
ÍNDICE:
A IGREJA MÃE EM JERUSALÉM
A IGREJA MISSIONÁRIA EM ANTIOQUIA
A IGREJA EFICIENTE EM ÉFESO
A IGREJA HERÉTICA EM COLOSSOS
A IGREJA ALEGRE EM FILIPOS
A IGREJA ESPERANÇOSA EM TESSALÔNICA
A IGREJA MUNDANIZADA EM CORINTO
A IGREJA CELEBRE EM ROMA
OUTRAS IGREJAS
BERÉIA, IGREJA IRREPREENSÍVEL
AS SETE IGREJAS DA ÁSIA
SIGNIFICAÇÃO DA PALAVRA ?IGREJA?
A palavra grega ekklesia, traduzida ?igreja?, acha-se três vezes em Mateus, vinte e três nos Atos dos Apóstolos, sessenta e duas nas cartas de Paulo, duas em Hebreus, uma em Tiago, três na Terceira Epístola de João e vinte no Apocalipse. Jesus não criou a palavra ekkesia; achou-a em uso, como João Batista achou o batismo de prosélitos, e dela se utilizou.
Entre os gregos, ekklesia era a assembléia dos cidadãos de um estado livre, reunidos e convocados a toque de trombeta pelas ruas da cidade. Nesse sentido a palavra é usada uma só vez (Atos 19:39) no Novo Testamento. O escrivão da cidade aconselhou a Demétrio e a seus companheiros ao julgamento da ekklesia grega.
Entre os hebreus, ekklesia era a congregação de Israel reunida perante o Tabernáculo, no deserto, ao som de uma trombeta de prata. Nesse sentido a palavra se encontra duas vezes no Novo Testamento (Atos 7:38; Hebreus 2:12). Estevão, contando a história de Israel, diz que Cristo esteve na ekklesia no deserto. O escritor da Epístola aos Hebreus cita um salmo profético, escrito por Davi, em que o significado é ?congregação? (Salmos 22:22).
Tanto no grego como no hebraico a palavra significava uma assembléia popular, e não uma comissão ou concílio. Entre os crentes primitivos, a palavra ekklesia tinha a acepção comum de uma assembléia popular convocada em lugar público, literalmente ?chamados fora? e ?convocados para Cristo?. Como havia três usos gerais do termo, a saber: o grego, o hebraico e o cristão, também havia, entre os cristãos, três idéias gerais, a saber: uma instituição, uma congregação particular e os redimidos de todos os tempos.
No decurso de vários séculos até o presente, tem havido grande controvérsia acerca da significação da palavra ?igreja? no Novo Testamento. As idéias de muitos crentes, acerca deste ponto, são vagas e contraditórias. Aquele talento de escol que foi Frederico W. Robertson estava tão imbuído e saturado do tradicionalismo episcopal, que disse: ?Quando os batistas, ou os independentes, ou qualquer outra seita, se unirem com os que ensinam ou praticam as mesmas opiniões e doutrinas, poderão formar uma seita, uma combinação, uma fé; mas não poderão ser uma igreja?. Não devemos dogmatizar onde existe uma divergência tão larga entre bons irmãos, conhecedores da Palavra de Deus. Entretanto, a significação tríplice da palavra ekklesia é, a meu ver, a que mais se recomenda, a única que me satisfaz.
A tabela, no apêndice deste livro, dá todas as passagens do Novo Testamento onde se encontra a palavra ekklesia, agrupadas sob as três acepções que tem, segundo o meu modo de entender. Consulte-a o leitor. Note-se que Atos 7:38 e Hebreus 2:12 se referem à congregação ou assembléia judaica; Atos 19:42, 41, a um ajuntamento ilegal, e Atos 19:39 se refere a uma assembléia legal, sim, mas não a uma assembléia cristã. Portanto, essas cinco referência são omitidas na citada tabela. Omitimos também Atos 2:47, porque a palavra ekkesia não se acha nos mais antigos e autorizados manuscritos do N.T. A palavra ekklesia, pois, acha-se cento e quatorze vezes no Novo Testamento, sendo que cento e nove têm a significação cristã. Quanto à classificação: em Atos 9:31 é mencionada como local, significando a igreja em Jerusalém, que foi dispersa pela perseguição de Saulo de Tarso. A classificação dupla em Efésios não é arbitrária, porque está em harmonia com a regra seguida por Paulo na Epístola aos Colossenses, onde ele empregava a palavra ?igreja? no sentido geral e particular. Nosso Senhor deu-nos o exemplo de tal costume de escrever, quando passou imperceptivelmente da discussão acerca da sua segunda vinda para o fim do mundo (Lucas 21:20-28).
1. TRÊS SENTIDOS NEOTESTAMENTÁRIOS DE ?IGREJA?
A classificação sumária do uso cristão da palavra é: a) Como instituição, quatorze vezes; b) como congregação local, noventa e três vezes; c) como reunião de todos os remidos, duas vezes
Consideremos minuciosamente as três significações cristãs do termo ?igreja?:
a) igreja como instituição:
?Sobre esta pedra edificarei a minha igreja? (Mateus 16:18). Jesus só edificou uma coisa, depois de sair da carpintaria em Nazaré, que foi a sua igreja. A palavra enfática é ?minha?, que distingue a Igreja de Cristo das assembléias dos gregos e dos hebreus. No Novo Testamento não se usam adjetivos para definir a ?igreja?. Os conhecidos adjetivos ?universal?, ?invisível?, ?espiritual?, ?católica? são de criação humana, e não divina. Essa instituição divina depende, num sentido importante, da confissão pessoal. Não meramente do homem Pedro, como querem os romanos, nem da simples confissão, como querem alguns protestantes; mas, sim, do homem que confessa a divindade essencial de Jesus. Essa confissão é a expressão do coração, e não do intelecto, como dizem as Escrituras: ?Pois é com o coração que se crê para a justiça, e com a boca se faz confissão para a salvação? (Romanos 10:10). Nós confessamos a Cristo; mas professamos uma religião. Não foi a simples percepção intelectual de Cristo, por parte de Cristo, que nosso Senhor louvou. O que Pedro fez e disse, ele o fez e disse à luz do Espírito Santo: ?Porque não foi a carne e sangue quem o revelou, mas seu Pai, que está nos céus? (Mateus 16:17). Quis Jesus dizer com isso que o poder divino operara em Pedro, levando-o a fazer essa confissão: ?Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor! Senão pelo Espírito Santo? (I Coríntios 12:3). A igreja, como uma instituição, foi sempre composta de material fraco, como Pedro, que pelo Espírito, reconheceu ser Jesus o Filho de Deus. A essa instituição e aos seus representantes foi confiada a autoridade de anunciar os termos ou condições pelas quais Deus perdoas o pecado. O mesmo poder dado a Pedro foi dado também aos outros dez apóstolos, segundo João 20:23; e a toda a Igreja, segundo Mateus 18:18.
A doutrina da Igreja Romana, de uma igreja universal, com poder de ligar e desligar, não se encontra nas Escrituras. Na verdade, a palavra católica não se acha no Novo Testamento; nem na versão dos Setenta (o Velho Testamento em grego). Foi nos tempos pós-apóstolos que se adicionou o termo católico aos títulos de certos livros; por exemplo: ?Primeira Epístola Universal (católica) de Pedro?. Pedro nunca teria dado esse título a uma das suas epístolas, porque nos dois primeiros versículos ele claramente limita a sua mensagem: 1) aos judeus; 2) aos judeus eleitos; 3) aos judeus eleitos dispersos; 4) aos judeus eleitos dispersos nas quatro províncias da Ásia Menor. Pode-se, pois, chamá-la de qualquer outra coisa, menos de uma epístola católica. Erro igual a esse adjetivo acrescentado aos nomes dos apóstolos e evangelistas, como, por exemplo: ?São Mateus?, ?São Marcos?, etc. Deus providencialmente preservou o texto sagrado isento desses erros romanistas. Os que bem entendem a nomenclatura do Novo Testamento nunca falam dos apóstolos como santos, em um sentido particular, à parte daquele que abrange todos os crentes fiéis em Cristo, que repetidas vezes são chamados ?santos?. ?Igreja Católica? não é nome bíblico; e nem aparece no mais antigo ?credo apostólico??.
Jesus tinha em mente uma instituição quando disse: ?Dize-o à igreja... se também recusar ouvir a igreja...? (Mateus 18:17). A presidência dos Estados Unidos foi uma instituição estabelecida pelo Artigo II, Seção I da Constituição, mesmo antes que houvesse um presidente. Houve vinte e oito presidente, porém só uma presidência como instituição. Talvez nos ofereça uma ilustração própria o júri. A VI emenda à Constituição Federal dos Estados Unidos requer um júri, no julgamento de todos os crimes. Ao acusado é garantido julgamento rápido e público por um júri imparcial. Quer isso dizer: Essa emenda à Constituição estabelece o júri como uma instituição. Assim, Jesus estabelece a sua Igreja como instituição. Na sua aplicação prática, o júri, com instituição, concretiza-se no júri local, que julga o acusado. Semelhantemente, a Igreja, instituição, toma corpo em parte congregação local.
A figura de um edifício se encontra no Novo Testamento em relação à Igreja como instituição, mas nunca se encontra o nome de igreja em relação ao edifício em que a igreja se congrega, como se usa comumente. Considerando a igreja como uma constituição, simbolizada por um edifício, cujas verdades fundamentais decorrentes são: 1) Cristo é o criador; 2) é o arquiteto; determina o material que entra no edifício; 3) é o mestre da obra; 4) é o alicerce: ?Porque ninguém pode lançar outro fundamento? (I Coríntios 3:11); 5) é o dono: ?minha igreja? significa a posse de uma propriedade; 6) é o morador do edifício: habita no edifício, na pessoa do Espírito Santo.
A figura de um organismo também foi usada em relação à Igreja como instituição. Considerada como instituição simbolizada por um organismo, depreende-se que 1) Cristo é a cabeça. A sua soberania é exercida pelo seu único vigário, o Espírito Santo. O exercício dessa soberania por um simples homem é usurpação, é blasfêmia. 2) A igreja é o corpo de Cristo. O corpo tem relação vital com a cabeça e recebe dela toda a direção. Corta-se a cabeça e o corpo morrerá. 3) Cristo é também o cabeça ?sobre todas as coisas na Igreja?. Exerce todo o poder no universo em benefício de sua Igreja. 4) A Igreja manifesta a plenitude de Cristo. Como Cristo revela concepção da natureza de Deus, assim também a Igreja revela a concepção do amor, autoridade, poder e glória de Cristo.
b) Igreja como Congregação Particular
Passemos, agora, à consideração da segunda significação do termo ?igreja?, a saber, uma Congregação Particular. Esse é o uso predominante no Novo Testamento. A expressão quer dizer pessoas regeneradas, num lugar, reunidas voluntariamente, em conformidade com as leis de Cristo, a fim de estabelecer o seu reino na terra. O membro de uma igreja não é por natureza, ou por qualquer outra circunstâncias independente da vontade do indivíduo, como o ser membro da família, ou do Estado, mas é da livre escolha da pessoa.
(1) Locais das reuniões - Provavelmente as igrejas primitivas congregavam-se em casas particulares. A Ceia do Senhor era celebrada numa dessas casas (Atos 2:46). A Igreja primitiva reunia-se na casa de Maria, mãe de João Marcos (Atos 12:12). Paulo mandou saudações pelo menos a três igrejas em casas particulares: a da casa de Áquila e Priscila (Romanos 16:3,5), a reunida em casa de Ninfas (Colossenses 4:15) e a da casa de Filemom, em Colossos (Filemom 2). Gaio, ?hospedeiro de toda a igreja? (Romanos 16:23). É provável que as passagens Romanos 16:14, 15 e I Coríntios 16:15 refiram-se a três outras igrejas em casas particulares. Era muito natural que as congregações se reunissem em casas particulares. Muitas igrejas, nos tempos atuais, tiveram o seu começo assim. A Primeira Igreja Batista de Richmond, por exemplo, foi constituída em 1870, com quatorze membros, ?na casa de um irmão, de nome Franklin?. Muitos outros exemplos poderiam ser citados.
(2) Os requisitos para ser membro das igrejas do Novo Testamento.
São bem definidos. Nem todos os residentes numa cidade poderiam tomar parte numa assembléia política grega. Seus membros precisavam ser livres. O simples nascimento de uma família judaica dava direito à congregação judaica. Os prosélitos, porém, precisavam ser circuncidados. Uma igreja cristã exigia a fé e o batismo para alguém ser membro dela. Uma ekklesia do Novo Testamento não era sinônimo da ekklesia judaica; e as condições de admissão eram inteiramente diferentes.
A questão de comunhão livre não foi levantada pela simples razão de que as muitas denominações que hoje existem então não existiam. O afastamento dos princípios inspirados é a fonte de muitas questões desagradáveis. Há um só caminho seguro a seguir, a saber: uma obediência rigorosa à ordem divina. Isso manifesta falta de amor fraternal. Os membros da ordem dos Cavaleiros de Pítias, por exemplo, não são membros de uma ordem de maçons, e vice-versa. Cada organização secreta tem a sua própria cerimônia de iniciação de membros. Isso não quer dizer que eles não estimem as outras organizações secretas. Membros de uma sociedade passam s outra, da mesma ordem, sem uma nova iniciação. Despertadas as diferenças, assim é com os batistas nos dias de hoje.
(3) A forma de governo dessas igrejas locais ? Era congregacional. Uma igreja ter autoridade sobre outra igreja, ou sobre um homem, ou grupo de homens, exercer jurisdição sobre outra igreja, ou sobre um território de diversas igrejas, são fatos estranhos ao Novo Testamento. Os crentes mais íntimos de Cristo entenderam que ele entregou a autoridade à coletividade da igreja. Havia vista a nomeação de Matias, pelos ?cento e vinte (Atos 1:15-22); a escolha dos sete diáconos pela multidão dos discípulos (Atos 6:2); a nomeação de Barnabé como representante da ?igreja em Jerusalém? (Atos 11:22); a escolha de Barnabé e Saulo, pela igreja em Antioquia (Atos 13:13); a eleição dos presbíteros pelo voto das respectivas igrejas (Atos 14:23); a escolha de Paulo e Barnabé para irem a Jerusalém por causa da controvérsia sobre a circuncisão na igreja em Antioquia (Atos 15:3); a expedição de homens escolhidos pelos apóstolos e anciãos, com a igreja toda (Atos15:22); o chamar à ordem os apóstolos, o julgamento do seu proceder, o reconhecimento da supremacia da assembléia local (Atos 10:1-4; 16:22-29; as provas abundantes de as igrejas dirigirem os seus negócios e disciplina (I Coríntios 5:4,5); e a escolha de um representante para viajar com Paulo (II Coríntios 8:19). Dessas passagens claramente se entende que uma assembléia particular governa-se a si própria. Não havia nenhuma hierarquia, mesmo onde e quando os apóstolos estavam presentes. Jesus salvaguardou as suas igrejas contra a forma episcopal de governo, isto é, da oligarquia, estabelecendo a forma de governo democrático, em que o governo era do povo, para o povo, e pelo povo.
(4) Definição de ?igreja? como congregação particular ? Uma compreensão clara das igrejas do Novo Testamento é tão importante que me atrevo a considerar o assunto sob um ponto de vista um tanto diferente daquele sob o qual já foi apresentado. Tomemos esta definição: uma igreja do Novo Testamento é um grupo organizado, de crentes batizados, com iguais deveres e privilégios, administrando os seus negócios sob a direção de Cristo, unidos na fé que ele ensinou, ligados pelo pacto de fazer o que ele mandou, cooperando com outras agremiações semelhantes nos empreendimentos para a extensão do seu reino.
c) Igreja como ?os Remidos de Todos os Tempos
A terceira significação da palavra ?igreja? é ?os remidos de todos os tempos?. ?Mas tendes chegado ao Monte Sião, e à cidade do Deus vivo, à Jerusalém celestial, a miríades de anjos; `a universal assembléia e igreja dos primogênitos inscritos nos céus (Hebreus 12:22-23). Todos os que, desde Adão até Cristo, foram salvos pelos méritos da morte de Cristo e serão membros dessa igreja na glória. Essa igreja não terá nenhuma ordenança, nem oficiais, nem organização. As condições para se entrar nela são: regeneração, santificação e glorificação. Ela está no futuro e distingue-se da igreja atual, que é uma instituição concentrando e operando em congregações particulares. Essa igreja vai ser a esposa do Cordeiro. As bodas ocorrerão no fim dos tempos, quando a obra redentora de Cristo estiver consumada, quando todos os inimigos forem postos por escabelo dos seus pés, quando a morte for aniquilada, quando ocorrer a ressurreição dos santos em corpos glorificados, então a igreja gloriosa, qual linda noiva, não tendo mancha nem ruga, nem qualquer semelhante, mas santa e irrepreensível, será apresentada a Jesus, o Noivo (Efésios 5:27). A Igreja como instituição será então fundida com a igreja na glória. Isso tudo está no futuro. Quando, não sabemos. Quando contemplamos as rugas e manchas das igrejas do presente, a Igreja aperfeiçoada na glória parece ainda mais remota.
2. DEFINIÇÃO DE IGREJA ANALISADA
Leiamos, de novo, a definição de igreja e a analisemos.
a) Um grupo organizado
A igreja não é uma simples aglomeração de povo; aliás, é mais que uma congregação. João Batista pregou às multidões e muitos seguiram a sua doutrina; mas não constituíam uma igreja. Estavam sem organização. Jesus principiou a primeira igreja com dois dos discípulos de João; ajuntou outros e organizou-os todos em uma congregação. Revestiu essa organização de poderes no dia de Pentecostes. Quando em suas viagens missionárias, Paulo plantava o evangelho, porém não considerava o seu trabalho consumado enquanto não organizava a igreja e promovesse a eleição dos seus pastores, pelo meio democrático de ?levantar a mão?. (Veja-se Davis Smith, Life and Letters of Paul, página 105). Um edifício não é essencial à existência de uma igreja, porém uma organização sim. O edifício é útil; a organização é indispensável. Logo que um grupo de pessoas se reúne, a fim de se constituírem em igreja, adota certos princípios como vínculos que as ligam e dirigem. Elas escolhem, então, os seus oficiais e aperfeiçoam sua organização, para atingir os seus propósitos.
b) Um Grupo de Crentes Batizados
Batismo significa batismo mesmo. A palavra grega não foi traduzida na versão do rei Tiago, nem nas revisões; foi transliterada. (O mesmo sucedeu com as traduções em português). Se o tradutor tivesse traduzido o original, forçosamente teria usado o termo ?submergir?, como em algumas versões em inglês. A significação da palavra, a descrição do ato, o simbolismo da ordenança, a prática uniforme dos cristãos primitivos, tudo se une para atestar que submersão é a forma do batismo cristão. Esse batismo é para os crentes, que adquiriram uma fé salvadora em Jesus Cristo. João Batista exigia uma mudança de coração antes de batizar os que vinham a ele. Jesus ordenou aos apóstolos que fizessem discípulos antes de os batizar. Os que de ?bom grado receberam a palavra? (Atos 17:11) foram batizados por Pedro, e pelos seus colegas. Filipe exigiu que eunuco tivesse fé antes de ser batizado. Os que foram convertidos pela pregação de Paulo, inclusive as famílias, são descritos como crente. Sem exceção alguma, o batismo do Novo Testamento era sempre feito mediante profissão de fé por parte do batizando. Em todos os registros no Novo Testamento vê-se que a fé sempre precedia o batismo.
Essa doutrina exclui as criancinhas, porque elas não precisam ser batizadas. Elimina o batismo dos que não são convertidos porque não estão prontos para ser batizados. Inclui todos os que crêem no Senhor Jesus Cristo como seu Salvador pessoal e impõe a cada um o dever solene de obedecer.
c) Um Grupo de Pessoas com Deveres e Privilégios Iguais
Uma classe dominadora é estranha a uma igreja do Novo Testamento. Jesus condenou esse costume pagão e disse ao seu povo: ?Não será assim entre vós? (Mateus 20:26). Os oficiais são escolhidos para guiar. Não para dominar. Salvo o prestígio que lhe advém do bom desempenho do cargo e do seu valor pessoal, mais nenhum direito tem o oficial da Igreja do Novo Testamento que outro qualquer membro não tenha. A hierarquia eclesiástica não é somente estranha à Bíblia, é também antibíblica. O pastor pode guiar, aconselhar o seu irmão na fé, mas nada lhe pode impor, porque seus direitos são os mesmos.
Assim é com os privilégios individuais. São todos iguais. Só numa igreja escritural é isso um fato. Nenhuma outra denominação, e nenhum outro governo civil dá direitos iguais à mocidade e à velhice, ao rico e ao pobre, ao homem e à mulher. Numa igreja, todos são iguais. E mais, os membros têm o direito de votar. Portanto, uma igreja batista é uma democracia pura, a única no mundo hoje. Naturalmente esses privilégios, como todos os demais, quando mal usados, trazem suas conseqüências. As democracias têm seus próprios perigos, se bem que diferentes dos de outras formas de governo. As consciências esclarecidas são a salvaguarda das igrejas batistas.
d) Um Corpo Administrando os Seus Negócios Debaixo da Soberania de Cristo.
Uma igreja batista governa-se a si mesma. Sua forma de governo é gongregacional, distinta do papal, episcopal ou presbiteriana. Tem todo o poder administrativo e judicial necessário. De suas decisões não há apelo, visto que ela é o tribunal supremo. Elas é, a um tempo, juiz e júri. Não tem poderes legislativos. O Novo Testamento é a sua lei e Cristo o seu legislador. Cristo é o ?cabeça sobre todas as coisas na igreja? (Efésios 1:22) O direito pelo qual as pequenas nações e povos oprimidos se têm batido, isto é, de determinar por si próprios a sua forma de governo e os seus oficiais, tem sido um princípio fundamental numa igreja batista, desde o início da era cristã. Esse princípio foi ensinado primeiro no Novo Testamento e tem sido tomado como regra por todas as igrejas batistas desde aquele tempo.
e) Um corpo Unido na Mesma Fé
Os membros de uma igreja do Novo Testamento formam um corpo unido na mesma fé, isto é, na fé que Jesus ensinou. Isso quer dizer a ?fé comum?, que é também a ?fé que uma vez para sempre foi entregue aos santos? (Judas 3). Essa fé compreende doutrinas, como: a da natureza pecaminosa do homem e a responsabilidade de se salvar a si mesmo; o amor eterno de Deus para com as suas criaturas; a divindade de Cristo e o seu poder de salvar; Cristo era Deus-Homem e fez expiação pelo nosso pecado; a missão e trabalho do Espírito Santo; o livramento do poder e pena do pecado mediante o arrependimento do pecador para com Deus e fé no Senhor Jesus Cristo; o poder e promessa de Cristo para guardar os salvos; as suas ordenanças, na ordem própria de sua significação; a igreja como um só corpo espiritual para os salvos; um inferno de miséria eterna e de sofrimentos contínuos para os que não se arrependerem.
Os batistas podem confraternizar com os cristãos que não aceitam senão parte dessas doutrinas, mas não como membros das suas igrejas. Podem eles ser salvos e não ser membros de uma igreja batista. Nós não nos constituímos em juízes da sua religião; recorremos ao Novo Testamento quanto ao assunto de confraternização eclesiástica. Segue-se que um membro inteligente de uma igreja batista nunca poderá unir-se com quem quer que seja que repudie essas doutrinas, sem violar a sua consciência. Segue-se também que nunca poderá haver união orgânica das igrejas e nem sequer o intercâmbio de membros, nem ?comunhão livre? enquanto não chegarem todos à unidade da fé. ?Acaso andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?? (Amós 3:3).
e) Um Corpo Ligado por um Pacto Para Fazer o Que Cristo Ordenou
Aqui, além da doutrina, encontramos atos. O mandamento repetido, reforçado e inevitável foi ?Ide?, ?fazei discípulos?, ?batizai? e ?ensinai? (Mateus 28:19-20). Omitir o ?fazei discípulos de todas as nações? significa tirar toda a vida à Grande Comissão. Quem fizer isso violará a confraternização com os verdadeiros batistas e negará a Cristo. Portanto, uma igreja batista é essencialmente missionária. O mandamento de Cristo constitui a ordem de marcha; as suas armas espirituais constituem a armadura; os confins da terra são o seu objetivo.
Esse privilégio deve ser incutido no coração de todos quantos fazem parte da igreja. Muitíssimas vezes essa ordem é recebida e negligenciada pelos crentes, até que venha um choque acorda-los para o esforço missionário, como a perseguição que espalhou os membros da igreja em Jerusalém. Pena é que muitos nunca despertem. Vivem como parasitas missionários; morrem sem causar tristeza na igreja e vão receber uma coroa sem estrelas. Suas almas estão salvas, mas suas obras perecem. Eles são salvos, ?todavia, como pelo fogo? (I Coríntios 3:15). Jesus está dizendo a alguns dos muitos ortodoxos: ?Nem todo o que me diz: Senhor, Senhor! Entrará no reino dos céus? (Mateus 7:21). ?E porque me chamais: Senhor, Senhor, e não fazeis o que eu vos digo?? (Lucas 6:46)
f) Um Corpo Cooperando com Outros, de Semelhante Natureza nos Empreendimentos do Reino
Há um provérbio que diz: ?Cada qual com seu igual?. Esse princípio determina a decisão de se fazer parte da igreja. Devia também determinar a cooperação na igreja. Esse mesmo princípio conserva e multiplica as espécies de pássaros, de animais e de plantas. Os que vivem e crescem em grupo muitas vezes apertam tanto os outros que estes desaparecem, e aqueles tomam conta do terreno. Esta é uma lição que deve ser escrita em letras grandes, de modo que ?possa ler quem passa correndo? (Habacuque 2:2).
Paulo louvou as igrejas da Macedônia pela prontidão em ajudar. Ele foi acompanhado por membros de outras igrejas cooperadoras que participaram do trabalho beneficente. A tarefa de cuidar milhares de santos pobres em Jerusalém era demasiadamente grande para uma só igreja, embora fosse a generosa igreja em Antioquia. A grande tarefa constituiu o desafio; o espírito de serviço aceitou-o, num esforço unido. Cooperaram.
3. DISTINÇÃO ENTRE O REINO DE DEUS E A IGREJA
Resta ainda mais um tópico para ser tratado neste capítulo. A distinção ou diferença entre reino e igreja. Nisso há muitos pensamentos vagos e confusos. Auxiliar-nos-á, na elucidação do assunto, a lembrança de que a idéia contida na palavra Basiléia -? reino ? é diferente da idéia contida em ekklesia. O reino dos céus, o reino de Deus e o reino de Cristo são a mesma coisa no Novo Testamento. Eles querem dizer o domínio sobre o qual Cristo reina e a soberania que ele exerce naquele domínio. Às vezes o reino quer dizer o território, outras os atos de reinar; e finalmente ambas as coisas. O reino é maior do que a Igreja como assembléia local ou como instituição. O reino existe agora, enquanto a igreja na glória está no futuro. Na eternidade, o reino e a igreja na glória poderão tornar-se uma só realidade. A Igreja é visível, o reino, invisível.
As igrejas são organizações cuja missão é estabelecer e estender o reino. Elas fazem isso: 1) testemunhando das verdades históricas do Novo Testamento; 2) proclamando o evangelho a todas as nações; 3) pela exibição e divulgação dos princípios do cristianismo. Nem todos os membros das igrejas locais estão no reino. Todos os membros do reino são membros das igrejas locais. Nem todos os que estão salvos estão filiados às igrejas, mas deviam estar.
?Batiza-te? é um mandamento para o indivíduo. Um ato que deve ser feito em obediência, tanto exterior como interiormente. É obrigatório a todo o crente. O modo de Jesus dizer4 que os crentes fariam parte de uma igreja era: ?Nem os que acendem uma candeia a colocam debaixo do alqueire, mas no velador, e assim ilumina a todos que estão na casa? (Mateus 5:15). O velador é a Igreja. ?Os sete candeeiros são as sete igrejas? (Apocalipse 1:20).
A IGREJA ? MÃE EM JERUSALÉM
A Páscoa e o Pentecostes eram grandes festividades entre os judeus. Decorriam exatamente sete semanas entre as duas festas. Jesus foi crucificado um dia antes da Páscoa e o Espírito Santo veio no dia de Pentecostes. As coisas que Jesus fez e ensinou em pessoa até o dia da Páscoa, continuou a fazer e ensinar, pelo Espírito, por intermédio da Igreja, depois do Pentecostes. Houve um interregno de cinqüenta dias. Durante os primeiros quarenta dias, ele se manifestou vivo a muitos, com infalíveis provas, aparecendo a Maria Madalena e a outras mulheres; a Pedro; a dois a caminho de Emaús; aos apóstolos na ausência de Tomé; novamente aos apóstolos, estando Tomé presente; aos sete à beira-mar; aos onze no monte da Galiléia; a Tiago; a mais de quinhentos irmãos, e, finalmente, aos discípulos, no dia de sua ascensão. Essas aparições trouxeram paz e segurança aos seus discípulos perturbados e converteram seus irmãos duvidosos. Durante os últimos dez dias do interregno, cento e vinte discípulos esperaram o cumprimento da promessa do Pai. Eles não são chamados Igreja antes de Atos 5:11, mas de fato eram uma igreja. A instituição que Jesus estabeleceu primeiro formou-se em igreja e localizou-se na cidade de Jerusalém.
Examinaremos alguns aspectos ou características dessa primeira igreja:
1. FRATERNIDADE
a) Os elementos constituintes da igreja eram cosmopolitas ---- Estavam incluídas, no pequeno números de membros, todas as classes e condições sociais. Senhoras distintas, como Joana e Suzana, da corte de Herodes, estavam em pé de igualdade com Maria, a viúva de um carpinteiro. Um advogado erudito, como José de Arimatéia, e um estudioso profundo, como Nicodemos, confraternizavam com pescadores, como Pedro e João. Simão, o zelote, e Mateus, o publicano, conviviam amigavelmente na mesma organização. O número de membros aumentou rapidamente e logo a igreja recebeu um rico proprietário, José de Chipre, e pobre mulheres judias, que falavam o grego. Nenhum saduceu creu em Jesus, enquanto ele estava vivo, mas é provável que houvesse saduceus ?na multidão dos sacerdotes que foram obedientes à fé? (Atos 6:7); assim sendo, os fariseus e saduceus convertidos se nivelaram e se uniram pelos laços cristãos.
b) Não havia classes
Uma igreja só de ricos, ou uma igreja só de pobres é uma anomalia. Uma igreja não existe exclusivamente para uma só classe. Numa igreja local, como em nenhum outro lugar da terra, deve existir deveras uma união perfeita entre ricos e pobres, pois Cristo é o Senhor de todos eles. A fraternidade humana é um sonho irrealizável fora de Cristo. Ele é o único vínculo de união. Nele todas as regras fictícias desaparecem. O leão forte e feroz e o cordeiro tímido e frágil se deitam juntos em Cristo. As igrejas primitivas dispunham de mais poder para realizar a fraternidade humanas do que todas as filosofias de todas as escolas e atuação de todos os governos.
c) Predominavam a democracia e a fraternidade
O conflito entre as classes acabar-se-ia se todos ouvisse a voz de Cristo, dizendo: ?Todos vós sois irmãos? (Mateus 23:8). A primeira igreja em Jerusalém demonstrou muito bem os ensinos do Mestre. E as suas verdadeiras igrejas hoje manifestam essa mesma verdade. Numa Grande Campanha Batista, a igreja, à qual fora pedida a maior participação financeira, levantou mais do que a quantia pedida e prometida. Por isso o espírito de gratidão manifestou-se fortemente. No domingo da vitória, o pastor abandonou o seu sermão e pediu a qualquer pessoa que quisesse falar para usar da palavra. Seis irmãos atenderam. Dois negociantes, um advogado, um professor, um missionário e um operário. Nenhum repetiu o que o outro disse, e nenhum falou mais que seis minutos. O último a falar foi o operário. Disse ele: ?Desejo dizer, aos novos membros e pessoas estranhas, que sou o membro mais insignificante desta igreja. Aqui há pessoas que possuem milhões, enquanto eu nada tenho; mas todos me tratam como irmão?. Belo testemunho, esse da fraternidade cristã!
Ser-me-ia impossível exagerar o espírito de democracia e fraternidade da igreja em Jerusalém.
2. AUTORIDADE
O governo da igreja era congregacional e democrático. Examinemos o primeiro capítulo de Atos dos Apóstolos. Os apóstolos queriam encontrar alguém para ocupar o lugar de Judas. Pedro tomou a palavra e citou uma profecia de Davi e aplicou ao caso, explicando os predicados necessários a um apóstolo. Incidentalmente, disse que Judas caiu de uma posição, e não da salvação. Pedro não se atreveu a sugerir um nome e, muito menos, a nomear um apóstolo. Maria, a mãe de Jesus, estava presente, mas não era considerada superior aos outros. Aliás, desse momento em diante as Escrituras não mais se referem a ela. Isso é um golpe na mariolaria.
A história é clara e positiva, ao relatar a escolha do novo apóstolo: 1) O caso foi submetido a todos os irmãos e irmãs; 2) Barnabé e Matias foram sugeridos como candidatos; 3) oraram ao Senhor para que se manifestasse qual era a sua escolha; 4) escreveram ?Barnabé? numa tábua, e ?Matias? e outra e as misturaram bem. A que tinha o nome Matias saiu primeiro. Foi a última vez que os crentes recorreram à sorte. O Espírito Santo vem imediatamente como o guia e agora temos melhores meios de sabermos a vontade de Deus. A palavra traduzida por sorte é kleros (clero). Daí vem o termo ?clero? para o ministério, que, infelizmente sobreviveu.
Depois que o número de membros dessa igreja se multiplicou grandemente, os negócios continuaram sendo dirigidos pelos processos democráticos, como quando havia só cento e vinte membros. ?E os doze, convocando a multidão dos discípulos, disseram: Não é razoável que nós deixemos a palavra de Deus e sirvamos às mesas. Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete varões de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais encarregaremos desse serviço. Mas nós perseveraremos na oração e no ministério da palavra. O parecer agradou a todos e elegeram a Estevão... e os apresentaram perante os apóstolos? (Atos 6:2-6). Esses cinco versos contêm cinco referências à congregação geral dos crentes e ensinam claramente que a multidão de crentes se governava a si mesma. Dificuldades internas se levantaram e os apóstolos expuseram o assunto perante a igreja. Foi resolvido criar uma função para cuidar dos aspectos temporais da igreja. Os sete mão constituíram uma ordem no ministério, mas uma classe de oficiais para aliviar os apóstolos e pastores do cuidado das coisas temporais, a fim de que pudessem dedicar-se à oração e à pregação.
Tiago, irmão de nosso Senhor, tornou-se pastor dessa primeira igreja. O resto da história, nos Atos dos Apóstolos, harmoniza-se com essas duas eleições: a do apóstolo e a dos diáconos. A igreja dirigia os seus próprios negócios. O fato de Pedro e João irem a Samaria não contradiz o fato de ser a igreja uma democracia. Eles eram apóstolos, com dons e poderes especiais, e não deixaram sucessores. A chamada ?sucessão apostólica? é mera fantasia. O ?episcopado histórico? é uma relíquia do romanismo.
3. UNIÃO
Vejamos, mais uma vez, aquele antigo grupo de cristãos, no cenáculo. Uma união sob quatro aspectos os caracterizava.
a) Unidos no mesmo lugar ? ?Estavam todos reunidos no mesmo lugar? (Atos 2:1). Todos os que criam estavam juntos. Os membros daquela congregação tinham o hábito de ir à igreja e perseveravam rigorosamente neste hábito. Bem mais tarde, porém, chegou o triste dia em que os crentes precisavam ser exortados: ?...não abandonando a nossa congregação, como é costume de alguns? (Hebreus 10:25).
Ir à igreja é um bom hábito. Muitas bênçãos advêm dele. John C. Williams, diácono da Primeira Igreja Batista de Richmond, freqüentava assiduamente as reuniões de sua igreja. Chegou a percorrer a pé quatro quintos da distância do percurso do redor da terra, indo à sua igreja e voltando. Um genro dele lhe perguntou, certa vez, quando ele ir sair em noite tempestuosa para ir ?a igreja:
- Senhor Williams, o senhor está sempre disposto a ir à igreja?
- Não, nem sempre; mas é meu costume ir sempre porque devo ir. A maior parte das vezes é para mim uma delícia; algumas outras é meramente um dever.
b) Unidos no mesmo propósito ? Os discípulos estavam todos de comum acordo. Puseram a sua mente numa só coisa ? a vinda do Espírito Santo prometido. Por curiosidade, haviam interrogado a Jesus quando ele fizera a promessa do Espírito: ?Senhor, é neste tempo que restauras o reino a Israel?? (Atos 1:6). Jesus reprovou-lhes severamente a curiosidade. Não pertencia a eles saber os tempos (o chronos), o período longo), nem as estações (o kairos, o período curto). A coisa mais importante para eles era estarem habilitados para o serviço. ?Mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo? (Atos 1:8). Tendo-lhes sido mandado esperar até que viesse o Consolador, obedecerem fiel e unanimemente. Sabiam o que precisavam e concordemente passaram a esperar. Passaram-se alguns dias sem qualquer sinal do cumprimento da promessa, mas eles continuaram esperando, juntos, até que veio o Espírito Santo. O Espírito Santo não vem sobre uma igreja dividida. Oxalá houvesse hoje essa união de propósito! È melhor que haja poucos membros, em harmonia e singeleza de coração, do que um grande número, mas dividido por dissensões e desarmonia. ?Com uma só mente no Senhor? (Filipenses 2:1-11), ?guardando a unidade do Espírito no vínculo da paz? (Efésios 4:3), são as evidência da força de uma igreja.
c) Unidos em oração ? ?Todos estes perseveraram unanimemente em oração? (Atos 1:14). A igreja em Jerusalém era uma igreja de oração. Os dez dias de espera foram bem empregados em oração. Deus estava mais pronto a abençoa-los do que eles estavam para receber a bênção. Mas a oração preparou-os para recebe-la. Este hábito de oração ficou estabelecido. Eles constantemente recorriam à oração (Atos 2:42). Os que oram habitualmente vivem vitoriosamente. Dificuldades vieram. O sinédrio proibiu a pregação e houve perseguição. Os discípulos recorreram à oração. Pediram a Deus que os auxiliasse a testemunhar com destemor (Atos 4:23-31).
Pela oração, a igreja triunfou da perseguição religiosa. As dificuldades se multiplicaram. Um apóstolo foi morto a espada, e outro aprisionado. A igreja buscava incessantemente recurso na oração (Atos 12:5-12). Deus livrou Pedro da prisão e dos soldados. Pela oração, a igreja triunfou da perseguição. A boa música aumenta o interesse do culto. Ler as Escrituras é instrutivo. A boa preparação atrai. Mas a oração genuína e mais poderosa do que tudo isso. É a força mais poderosa que a igreja pode empregar.
d) Unidos em poder ? Línguas repartidas, como que de fogo, pousaram sobre cada um deles. Não eram línguas de fogo. Eles não poderiam suportar o fogo. Eram línguas como que de fogo, repartidas como chamas. ?E todos ficaram cheios do Espírito Santo, e começaram a falar noutras línguas? (Atos 2:4) Essa experiência foi comum a todos. O que foi perdido na torre de Babel, foi recuperado no dia de Pentecostes. Jesus cumprira a sua palavra; as orações foram respondidas.
As evidências da presença do Espírito Santo foram externas: 1) Houve o som de vento, indicando o poder penetrante do Espírito para trazer a vida. ?O vento sopra onde quer, e ouves a sua voz; mas não sabes donde vem, nem para onde vai; assim é todo aquele que é nascido do Espírito? (João 3:8). 2) Apareceram línguas repartidas, indicando o poder purificador do Espírito. Eles viram o fenômeno. 3) Começaram a falar em outras línguas, de tal modo que as multidões das diferentes partes do mundo ouviram o evangelho na sua própria língua. A intenção do Espírito era que eles fossem testemunhas de Cristo. As multidões ?maravilhara-se?; todos ficaram atônitos e confundidos (Atos 2:7-13).
Houve, também, evidências internas da presença do Espírito Santo: 1) Obtiveram uma compreensão melhor das Escrituras. O povo pensava que os discípulos estivessem embriagados. Pedro citou pormenorizadamente a profecia que então se cumpria. Estavam embriagados, mas sua embriaguez era espiritual; o vinho que eles beberam era o novo vinho do reino. Pedro pregou um sermão curto, registrado em vinte e dois versículos, mas forte, incisivo e convicente. Dez versos contêm citações de Joel e Davi, e os outros doze contêm uma interpretação e aplicação dos dez primeiros. 2) Tornaram-se possuidores de uma coragem santa. Todos os apóstolos fugiram quando Cristo foi preso. Pedro o negara três vezes. Agora, que mudança! Pedro e João estão perante os juízes do sinédrio sem receio algum, não se assustando com as suas ameaças. Os anciãos, escribas, sacerdotes, oficiais e outros ficaram profundamente impressionados ?vendo a intrepidez de Pedro e João? (Atos 4:13). Os crentes reunidos na casa de João Marcos oraram assim, após as ameaças a Pedro e João: ?concede aos teus servos que falem com todas a intrepidez a tua palavra? (Atos 4:29). Assim, eles continuaram falando. 3) Foram todos de um zelo ardente. Uma paixão e uma energia nova vieram com o Espírito. As redes de pescar perderam o seu atrativo. A perseguição foi um vento que espalhou a semente. Eles foram por toda a parte anunciando a palavra. Gibbon, o historiador, refere-se ao zelo ardente dos crentes primitivos como uma das causas da rápida divulgação do cristianismo através do Império Romano. 4) Houve resultados maravilhosos. O poder espiritual é uma força real dentro do coração. Vem de cima, habita no crente e opera por meio dele. Pela pregação de um sermão, três mil almas se converteram (Atos 2:37-41. Dois capítulos mais adiante, lemos que cinco mil homens creram (Atos 4:4). Ainda mais adiante, dois capítulos, lemos: ?...se multiplicava muito o número dos discípulos em Jerusalém e muitos sacerdotes obedeceram à fé (Atos 6:7). Esses grandes resultados foram conseguidos no breve espaço de três anos e meio.
4. REVESTIMENTO ESPIRITUAL
a) A relação entre o batismo do Espírito e o batismo da água - Jesus não menosprezou o batismo da água, quando disse: ?Porque na verdade João batizou em água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo, dentro de poucos dias? (Atos 1:15). Por uma comparação, ele os preparou para a esfera mais alta em que haviam de entrar mais tarde. A comparação manifesta uma tríplice diferença: 1) João batizava num elemento ? água. Eles, os discípulos, porém, haviam de ser batizados numa Pessoa ? o Espírito Santo. Primeiro, o que é natural; em seguida, o que é espiritual. 2) O batismo de João era administrado uma vez e os crentes saíam da água. Eles haviam de ser batizados, porém, numa pessoa em quem haviam de permanecer. 3) O batismo de João simbolizava o rompimento com o pecado. O batismo no Espírito simbolizava a união com Cristo. Certamente o batismo não foi substituído nem abolido, como os quacres ensinam. Os convertidos no dia de Pentecostes foram batizados do mesmo modo como haviam sido os primeiros convertidos: ?De sorte que foram batizados os que receberam a sua palavra? (Atos 2:41). A prática do batismo depois de Pentecostes não foi alterada, como provam os seguintes passagens: ?Mas, quando creram em Filipe, que lhes pregava acerca do reino de Deus e do nome de Jesus, batizavam-se homens e mulheres? (Atos 8:12). Paulo foi batizado depois de receber o Espírito Santo (Atos 9:18). Cornélio foi batizado depois que o Espírito caiu sobre ele (Atos 10:44-48). O batismo e a obra do Espírito Santo andavam juntos. Os samaritanos foram batizados e depois receberam o Espírito Santo. Paulo e Cornélio receberam o Espírito Santo e depois foram batizados. Não h.a, no Novo Testamento, afirmação alguma que nos autorize a abolir o batismo, ou alterar-lhe a forma.
b) O Espírito não entrou no mundo no dia de Pentecostes ? Ele se movia sobre a face das águas, segundo lemos no primeiro capítulo de Gênesis. Ele contendeu com os homens perversos, como se vê no capítulo 6 de Gênesis. Davi orou: ?Não retires de mim o teu Santo Espírito? (Salmos 51:11). Os profetas indagavam qual o tempo, ou qual a ocasião que o Espírito de Cristo, que estava neles, ?indicava? (I Pedro 1:11). Zacarias e Isabel profetizaram sob a inspiração do Espírito. Jesus, antes de subir ao Pai, assoprou sobre os seus discípulos e disse: ?Recebei o Espírito Santo? (João 20:22). Há, entretanto, uma diferença na função e obra do Espírito Santo na nova dispensação. Na velha dispensação, um homem mau como Saul tinha o espírito de profecia. Na nova dispensação porém, é dado o Espírito só aos homens regenerados, e os conserva como tais. O Espírito está neles, e não sobre eles. Simão, o mago, poderia obter o Espírito na velha dispensação, mas não podia na nova. Outra observação: No Velho Testamento, o Espírito era dado só aos oficiais, juízes, reis e profetas (Juízes 15:14). No Novo Testamento, ele é para todos os crentes: ?Derramarei o meu Espírito sobre toda a carne?: velhos e moços, homens e mulheres, escravos e livres (Joel 2:28-29). No Velho Testamento, o Espírito do judaísmo não era missionário. No Novo Testamento, ele é dado, a fim de habilitar os crentes para o serviço cristão. Ele tinha a mente do crente; convence o pecador do seu pecado; manda obreiros para sua seara; sela a pregação de sua palavra para a salvação. Duas verdades aparecem em Atos dos Apóstolos a respeito de todo o obreiro guiado pelo Espírito: 1) era dirigido à própria pessoa. O anjo do senhor disse a Filipe que fosse ao deserto e ele achou uma alma ansiosa de receber a mensagem; Paulo foi providencialmente proibido de pregar na Bitínia e foi enviado à Europa. 2) Ele inspirava a palavra exata a ser falada. Filipe pregou Jesus ao eunuco, e ele professou a sua fé. O Senhor abriu o coração de Lídia, e ela atendeu às explicações de Paulo.
5. ORDENANÇAS
a) Uniformidade na prática do batismo ? A comunidade cristã primitiva praticava duas cerimônias, chamadas ordenanças: batismo e ceia. O batismo era administrado aos que recebia a palavra. O grande mandamento de Jesus era plenamente obedecido: ?Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo?. (Atos 2:38). O batismo exigia fé. ?De sorte que foram batizados os que receberam a sua palavra? (Atos 2:41). Arrependimento e fé são a parte humana; a regeneração é a parte divina. Quando um pecador se arrepende e crê é regenerado pelo Espírito de Deus, e, uma vez regenerado, está em condições de ser batizado. Aliás, isso é um dever que imediatamente se lhe impõe. A salvação precede as ordenanças. Abraão foi justificado antes de saber qualquer coisa ritual mosaico. João Batista, não vendo frutos de arrependimento em alguns que queriam se batizados por ele, recusou-os (Mateus 3:7-10). A nota dominante da sua pregação era: ?Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus? (Mateus 3:2). Ele pregava primeiro o arrependimento, depois o batismo, para remissão dos pecados. Jesus e seus apóstolos faziam discípulos antes de batizá-lo (João 4:1). A igreja em Jerusalém observava a mesma ordem. Os membros daquela igreja eram coerentes nessa prática em todos os lugares aonde iam. O diácono Filipe tornou-se evangelista. Os que se convertiam com sua pregação eram batizados em nome de Jesus Cristo, isso depois de crerem nas boas-novas do reino de Deus. Ele conduziu um homem ansioso ao conhecimento de Jesus Cristo e só depois é que o batizou (Atos 8:34-39). A descrição ampla da realização da ordenança, nesse último caso, não deixa dúvida alguma quanto ao modo de ser ela ministrada. Quanto à significação do ato, era uma prova da fé do eunuco e o penhor de sua lealdade a Jesus Cristo. A missão do evangelista era pregar a Cristo e batizar aqueles que nele criam. Pedro aconselhou a seus companheiros que batizassem os gentios convertidos em Cesaréia (Atos 10:47). A remissão batismal, ensinada por alguns, faz com que a salvação dos crentes dependa de uma ordenança e de mais algumas outras coisas. Entretanto, as Escrituras ensinam que a salvação é toda de graça, pela fé.
Devemos notar duas idéias a respeito da significação das palavras de Pedro, em Atos 2:38: 1) Ele não podia contradizer o seu Senhor. O Mestre ordenara ?que em seu nome se pregasse o arrependimento para remissão dos pecados, a todas as nações? (Lucas 24:47). Não ligava o batismo com a remissão do pecado. O que ele disse foi que o seu sangue fora derramado a favor de muitos, ?em resgate de muitos? (Mateus 20:28). Se foi o seu sangue, então não foi a água do batismo. A significação da palavra de Pedro era análoga à de nosso Senhor em Marcos 16:16: ?Quem crer e for batizado será salvo; mas que não crer será condenado?. Não porque não esteja batizado, mas porque não crê. 2) Pedro não podia se contradizer. Três vezes em Atos dos Apóstolos, depois do Pentecostes, ele menciona a remissão dos pecados, e em nenhuma parte a liga com o batismo: ?Arrependei-vos, pois, e convertei-vos, para que sejam apagados os vossos pecados? (Atos 3:19). ?Deus, com a sua destra, o elevou Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e remissão de pecados? (Atos 5:31). ?A ele todos os profetas dão testemunho de que todo o que nele crê receberá a remissão dos pecados pelo seu nome (Atos 10:43). A conclusão lógica da doutrina da regeneração batismal, quando aplicada à ceia do Senhor, estabelece aquela outra, da transubstanciação.
A doutrina da remissão batismal produz dois maus resultados opostos: 1) pospor o batismo, tanto quanto for possível, a fim de ter a certeza de que todos os pecados estão purificados; 2) o batismo de crianças, a fim de que elas não morram e se percam. Dois dos maiores males advindos ao mundo têm sido a união da igreja com o Estado e a perseguição religiosa; ambos se originaram na doutrina da regeneração batismal. Alguns dão demasiada importância ao batismo, enquanto outros, por seu turno, reduzem-lhe o justo valor. A primeira igreja praticava-o como ato de obediência por parte dos salvos.
b) A ceia do Senhor era a outra ordenança - Os crentes da primeira igreja perseveram no partir do pão. Uma nova ordenança havia sido instituída por Jesus na noite em que fora traído. A Páscoa pertencia à Teocracia da Velha Dispensação, enquanto a Ceia do Senhor simbolizava a relação vital entre o seu Rei Invisível. Jesus prestou, naquela noite memorável, pela última vez, homenagem ao passado e estabeleceu um novo símbolo, para ser observado no futuro. A ceia concretizava o Novo Concerto, que era mais espiritual que o antigo e ao mesmo tempo era tão solene e impressiva como a Páscoa. A sua significação, para os crentes, era profunda e preciosa. Eles viam, nessa ordenança: 1) Um memorial permanente do seu Senhor; 2) a manifestação objetiva de sua dependência do sacrifício de Cristo pelo pecado; 3) uma lembrança constante da necessidade de sua comunhão com ele para seu sustento espiritual; 4) o laço de uma nova fraternidade; 5) o anúncio contínuo da volta de Jesus ao mundo.
c) O batismo e a ceia eram as duas únicas cerimônias da nova comunidade ? Foram divinamente criadas tanto em relação ao número quanto à sua natureza. A igreja em Jerusalém ministrava o batismo uma só vez aos seus membros e a ceia era-lhes ministrada freqüentemente; talvez uma vez por semana ou até diariamente. Nenhuma autoridade humana pode aumentar o número das ordenanças. Só há estas duas, e não pode haver mais. Além disso, nenhuma autoridade humana pode mudar a forma ou significação dessas ordenanças. O batismo é o símbolo de que nós estamos em Cristo; a ceia é o símbolo de que Cristo está em nós.
6. O SUSTENTO FINANCEIRO
a) Unidade de bens, socialismo? ? Houve uma situação na igreja em Jerusalém que tem suscitado grande controvérsia e confusão de idéias. Trata-se da comunidade de bens, conforme Atos 2:44 e 4:32-37. Alguns estabelecem, nesse caso, apoio cristão ao socialismo. Os socialistas advogam a nacionalização das indústrias e a abolição das propriedades particulares. Argumentam que essa passagem ensina que os ricos e os pobres devem pôr toda a sua propriedade num funmdo comum, de que todos participem igualmente. Eles não levam em conta o fato bem reconhecido de que, se a igualdade de bens fosse estabelecida hoje, amanhã haveria desigualdade, se aos homens fosse permitido negociar.
Será que essa passagem ensina realmente o socialismo? Admitindo-se que sim, ela ensinaria um socialismo voluntário. Os que os crentes fizeram não foi obediência a qualquer lei ou mandamento divino. O conselho que Jesus deu ao jovem rico não vai de encontro a essa asserção, porque os bens do moço impediam a sua capacidade espiritual. E Jesus, conhecendo a sua fraqueza, deu-lhe aquele conselho. Noutras circunstâncias, Jesus deu conselhos diferentes àqueles que buscavam salvação. Sempre procurava remover o obstáculo entre o pecador e ele. Não obstante, Jesus não exigiu de José de Arimatéia, por exemplo, que vendesse os seus bens; foi no novo e caro sepulcro dele que Jesus teve sepultamento decente. Não exigiu, do dono do horto, perto de Jerusalém, que o vendesse; pelo contrário, foi ali que Jesus achou um retiro sossegado, separado do barulho e conflito da cidade, e um lugar de comunhão com o Pai. Um rico amigo de Jesus possuía na cidade santa, uma casa bastante ampla, onde se pôde preparar um banquete para treze pessoas, mediante aviso de poucas horas de antecedência. Os pais de Jesus eram pobres; ele mesmo permaneceu pobre; advertia os ricos quanto aos perigos da riqueza, mas também os salvava e com eles cultivava amizade.
A melhor interpretação da Bíblia é a própria Bíblia. O capítulo 5 de Atos desfaz toda a dúvida quanto à comunidade de bens e mostra que esse costume era voluntário. Pedro disse a Ananias: ?Guardando-a (a propriedade) não ficava para ti?? (versículo 4). Eis aqui a autoridade positiva do direito da propriedade particular. ?E vendida, não estava em teu poder?? Ele não foi obrigado, por qualquer lei, a dar tudo. O que ele queria era a reputação de ser muito liberal, sem que efetivamente o fosse, e Deus o matou, não porque não desse tudo, mas porque mentiu à igreja e a Deus. Deus nos trata com mais misericórdia agora do que naquele tempo. Se Deus matasse todas as pessoas nas igrejas de hoje que mentem quanto ao que podem dar e realmente dão, os mortos pelo Senhor seriam muitos. É provável que não houvesse, em certas igrejas, número suficiente para realizar-se uma reunião de negócios.
Se o leitor desejasse mais provas, bastaria dizer que nenhuma outra igreja do Novo Testamento praticou a comunidade de bens. Tanto Jesus como Paulo ensinaram que o crente é meramente um despenseiro dos bens em seu poder, e que deve usá-los sabiamente, em benefício próprio e dos seus semelhantes, mas não ensinaram o socialismo. Mais ainda, essa única experiência fracassou. As outras igrejas mandaram espontaneamente socorro aos crentes pobres em Jerusalém. Paulo organizou cuidadosamente muitas outras igrejas independentes, em ação fraternal e cooperativa, que substituiu a fracassada comunidade de bens em Jerusalém. Essa comunidade não foi um bom exemplo de socialismo ideal.
Mas não devemos perder de vista a força dessa comunidade de bens. Ela fala bem alto da fé, entusiasmo e devoção dos crentes, que estavam prontos a dar tudo, para auxiliar a causa. Esperavam para breve a volta de Cristo à terra. Pela grande alegria que sentiram por causa do Pentecostes, ?ninguém dizia que coisa alguma das que possuía era sua própria, mas todas as coisas lhes eram comuns? (Atos 4:32). As circunstâncias eram especiais: um grande avivamento se operava; alguns perderam os bens em virtude de se tornarem cristãos; milhares deles ficaram mais tempo em Jerusalém do que esperavam; estavam sem agasalho e sem alimento e a igreja os repartia entre eles, e todos punham seus haveres à disposição da igreja, para atender a todas as necessidades. Presenciei um espírito semelhante na reunião de uma associação batista, em Virgínia, onde milhares de pessoas comiam em mesas improvisadas. Esta forma de socialismo também eu adotaria.
7. TRINFO NA PERSEGUIÇÃO
a) A igreja triunfou da perseguição: saduceus, fariseus, Estado ? Nosso salvador disse, aos seus discípulos, que deviam estar preparados para enfrentar perseguições. E de fato eles estavam preparados quando elas vieram. Disse-lhes também que não deviam recear quanto à defesa da sua causa, porque o Espírito Santo lhes daria as palavras que tivessem de dizer. Jesus estaria com eles nas horas de provações em todo tempo e lugar. As palavras de Jesus quanto à perseguição e preservação dos seus discípulos foram em breve cumpridas.
Primeiro, os saduceus ficaram enfurecidos por causa da ressurreição de Jesus. Eles eram materialistas. O seu credo negativo era: não há anjo, nem espírito, nem ressurreição, nem juízo final. Pedro, como testemunha pessoal, pregava habitual e persistentemente a ressurreição de Cristo. No dia de Pentecostes, disse: ?Ora, a este Jesus, Deus o ressuscitou, do que todos nós somos testemunhas? (Atos 2:32). No alpendre de Salomão, afirmou: ?Matastes o autor da vida, a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, do que todos nós somos testemunhas? (Atos 3:15) ?Deus suscitou a seu Servo, e a vós primeiramente vo-lo enviou para que vos abençoasse, desviando-vos, a cada um, das vossas maldades? (Atos 3:26). Perante o sinédrio, declarou: ?Seja conhecido de vós todos, e de todo o povo de Israel, que em nome de Jesus Cristo, o nazareno, aquele a quem vós crucificastes e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, nesse nome está este aqui, são diante de vós? (Atos 4:10). ?Com grande poder os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e em todos eles havia abundante graça? (Atos 4:33). Perante o sinédrio pela segunda vez, disseram: ?O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, ao qual vós matastes, suspendendo-o no madeiro; sim, Deus com sua destra, o elevou Príncipe e Salvador, para dar a Israel o arrependimento e remissão de pecados. E nós somos testemunhas destas coisas, e bem assim o Espírito Santo, que Deus deu àqueles que lhe obedecem? (Atos 5:30-32). Seis vezes, em cinco capítulos, se prega a ressurreição. Essa doutrina fulminava a doutrina dos saduceus, aniquilava a sua influência, punha-lhes em perigo a posição e a vida. Por isso, resolveram combatê-la. A força física, e não os argumentos, era a sua arma predileta. Duas vezes os apóstolos foram presos; na primeira vez, foram libertados sob ameaças; na segunda, o conselho de Gamaliel salvou-lhes a vida, se bem que não os tenha livrado de serem açoitados. Ameaças e prisões não impediam a pregação, nem destruíam a verdade. O número de discípulos em pouco foi acrescido de mais de cinco mil pessoas, justamente na ocasião em que os apóstolos foram presos pela primeira vez. Foram, dados, à igreja, dons milagrosos; os hipócritas foram mortos, o povo se maravilhava dos feitos dos apóstolos e eles se regozijavam com isso e também com o fato de serem considerados dignos de sofrer desonra pelo nome de Jesus, que lhes dissera: ?E sereis odiados de todos por causa do meu nome? (Mateus 10:22). A alegria e heroísmo com que eles se houveram vulgarizava a nova causa e derrotava os saduceus. A pregação convincente, a boa maneira de viver por parte deles e as obras poderosas recomendavam a sua causa ao povo. Quanto mais perseguidos eram, tanto mais as conversões se multiplicavam.
Segundo, os fariseus ficaram enfurecidos pela pregação e milagres de Estevão. Pela pregação e conduta. Ele feria os arraigados preconceitos farisaicos. A questão agora já não era a ressurreição, mas o valor e a permanência da Velha Dispensação. Estevão provou a superioridade do sacrifício de Cristo sobre o sacerdócio e o templo; os milagres que operava eram credenciais divinas da doutrina que ensinava. A discussão, e não a força, era a que seus inimigos empregavam. Discutiam com ele, mas não podiam resistir à sabedoria e ao espírito com que falava. Derrotados na discussão, os fariseus subornaram testemunhas que o acusaram de blasfêmia. A sua nobre defesa exacerbou-lhes a ira. Rangeram os dentes, taparam os ouvidos, a fim de não ouvirem a voz do pregador, e, arremetendo-se unânimes contra ele, expulsaram-no da cidade e o apedrejaram. Porém, a luz que brilha no rosto dos anjos também iluminou o semblante dele. Os céus abriram-se perante os seus olhos. Jesus, representado em outros lugares como assentado junto ao trono de Deus, levantou-se, ficou de pé, como que em defesa de seu discípulos martirizado. Dos lábios do moribundo Estevão subiu, a Deus, uma súplica a favor dos seus perseguidores. Um dos principais antagonistas, Saulo de Tarso, nunca pôde livrar-se daquela cena tremendamente trágica e acusadora. A influência foi tal que alguém afirmou: ?Se Estevão não orasse daquela maneira, a igreja não teria Paulo?.
A perseguição, que começou limitada a um indivíduo, estendeu-se como um temporal e expulsou todos os crentes de Jerusalém, exceto os apóstolos. Os perseguidos, porém, iam pregando por onde andavam. As multidões escutavam unânimes ao mais poderoso dos fariseus convertido, que foi Paulo. A Igreja ganhava o seu obreiro mais útil.
Os saduceus e fariseus fracassaram, mas o Estado tentou outros meios. Herodes Agripa, o rei, estendeu sua mão para fazer mal a alguns da igreja. Tiago foi por ele morto a espada. Pedro foi metido no cárcere; mas as cadeias não puderam com o homem protegido por Deus, o qual foi libertado pelo anjo. ?O anjo do Senhor acampa-se ao redor dos que o temem, e os livra? (Salmos 34:7). Um anjo libertou Pedro da prisão e outro matou a Herodes. Os bichos comeram-lhe o corpo corrompido. A despeito de toda a perseguição, a palavra de Deus crescia em aceitação e os seus efeitos se multiplicavam. As armas usadas contra a igreja, fiel e corajosa, de nada valeram. A perseguição pelos saduceus terminou com o providencial conselho de Gamaliel. A perseguição farisaica terminou com a conversão do seu chefe, Saulo. A perseguição pelo Estado foi interrompida quando Deus feriu de morte a Herodes por haver aceitado honras divinas.
Não haverá, porventura, hoje em dia, demasiada concordância entre o mundo e as igrejas, devido à atitude complacente da parte de muitas delas? Não seremos n´sos tímidos demais no combate aos erros de doutrina e à iniqüidade do mundo? Cada pastor tem de escolher entre o ser um indiferente ou um profeta. Se ele é um indiferente, os ímpios o louvarão e exaltarão. Se ele é um profeta, pregador de um evangelho poderoso, sadio e puro, os liberais o chamarão de fanático. Mas, nesse caso, receberá a cora que não murcha. A propósito, nosso Salvador disse: ?Aí de vós, quando todos os homens vos louvarem! Porque assim faziam os seus pais aos falsos profetas? (Lucas 6:26). Uma igreja, ou um pregador, não deve ser belicosa, mas deve corajosa e fiel. O mesmo Deus que cuidou da igreja em Jerusalém, ainda vive e cuida dos que lhe pertencem.
A luta dos batistas, no Estado de Virgínia, ilustra essa questão. Eles foram a última denominação que apareceu nesse Estado quando ainda era uma colônia. A perseguição era muito forte. Quem mais sofreu foi essa denominação, mas em todos os anos de perseguição eles jamais recuaram de sua franca atitude em defesa das verdadeiras doutrinas. Algumas outras denominações dissidentes da religião oficial (anglicana) se satisfaziam com uma simples tolerância; mas os batistas nunca deixaram de pugnar pela completa liberdade re